Dê um basta!

namorados

(Nathalia Paccola)

Acredito que o grande problema da vida é assumir o que somos, o que queremos e sobretudo aquilo que não sentimos. Na individuação, termo de Jung, aprendemos que cada pessoa é única, sem divisões, entretanto busca incessantemente completar suas desarmonias em tudo que está fora de si, naquilo que lhe faz bem ou simplesmente, em objetos.

Este objeto pode ser uma roupa nova, calçados, viagens, comidas, homens, dentre inúmeros outros que lhe garantam momentos de homeostase. Eleito um desses objetos como fonte de felicidade, faz-se um investimento, sempre para garantir ganhos afetivos (primários) ou materiais (secundários).

Resumindo, toda vez que você coloca suas provisões fora de você mesmo, você vai estar apenas trocando a mosca, pois, com o perdão da palavra, a merda continuará a mesma. Acredite, o ego só tem um atributo: a razão, até mesmo a emoção é controlada pela razão; tentar buscar pelas próprias mãos o prazer de ser feliz, é utilizar o ego que avalia e fazer bom uso do ego que sente.

Não se ofenda se até aqui as palavras parecem confusas, no dia em que você deixar de acreditar que perdeu algo aprenderá que só perdemos aquilo que achamos que temos e nós não temos nada além do nosso Self. Só teremos tudo o dia em que não nos apegarmos a nada. Essa felicidade tão almejada tem de ser intrínseca pela estrutura do amor.

Quebrar qualquer ilusão, como ter de casar, ter filhos, ter uma casa, bom emprego, é trabalhoso. Por conta dessas ilusões as pessoas estão clivadas, divididas entre aquilo que é empático e o que é egocêntrico. Transferir a responsabilidade pela sua vida para outra pessoa é uma atitude egoísta, a grande conquista é a si mesmo.

Abdique sua atitude egóica, precisamos parar de contar mentiras para nós mesmos, abandonando inseguranças e as cobranças por reconhecimento. O universo providencia todos os dias instrumentos para sua felicidade. Permita-se ser amado e ajudado. A pessoa que não aceita ser amada está na contramão do Self.

Se você está sofrendo, dê um basta ou continuará sofrendo. Só existe uma verdade: o amor incondicional, sem esperar nada, sem expectativas. Se você ainda espera uma atitude do outro é porque está sendo hipócrita. A hipocrisia é a pior atitude que podemos ter, mais uma vez estamos clivados através dos ganhos que temos na vida.

As vezes a pessoa está tão apoiada nessas mentiras que nem mesmo em terapia conseguirá se libertar, a hipocrisia lhe serve como muleta. Tirar essa muleta em consultório não é caridade, é arrancar a única coisa que lhe sustenta. Um árduo e belo trabalho de individuação está premente, somente através das elaborações desses conflitos internos a paz começará a parecer.

Ninguém evolui sem aprender, sem enfrentar. A verdade que construímos não pode ser diferente da verdade absoluta e você só vive essa verdade absoluta quando deixa de sofrer e você só deixa de sofrer quando se liberta das provisões narcísicas e somente se liberta das provisões narcísicas quando se permite amar e ser amado.

Reflita e reaja: “remendo novo não cabe em roupa velha”.

10 pensamentos sobre “Dê um basta!

  1. Douglas Marquezin, eu acredito no que foi escrito pela Nathalia, no conceito de individuação de Jung, porém não no estoicismo. Não posso responder pela Nathalia, mas entendi o texto dela da seguinte forma, que é como penso. Individuar-se significa encontrar-se consigo mesmo. De maneira prática, significa investigar, assimilar, reconhecer seus próprias questões internas. Significa conhecer a si mesmo, entrando em contato com seu “mundo interior”, descobrindo seus “pontos fortes” e “pontos fracos”, e trabalhar tudo isso com objetivo de alcançar uma harmonia interna. Essa harmonia interna não despreza a necessidade de uma harmonia externa. Aliás, individuar é importante até para se alcançar uma harmonia externa, pois é individuando que nós nos encontramos também com nosso papel no mundo. Não se trata, portanto, de não querer se casar e não se casar, de não querer ter filhos e não tê-los etc. Trata-se, apenas, de não esperar que esses desejos preencham o lugar que cabe ao Self. Ou seja, se estou vazio, se estou perdido, enfim, se não conheço a mim mesmo, e por causa disso eu busco preencher minha vida buscando um casamento, então me casarei pelo motivo errado. Terei filhos pelo motivo errado. Primeiro importa que eu me conheça, que eu me encontre, que eu compreenda que preciso estar completo em mim mesmo no que me cabe. E só assim estarei pronto para me casar, para ter filhos etc. Portanto, é completamente o conceito de individuação do conceito de estoicismo. No estoicismo temos um desapego absoluto de todas as coisas. Mas, no processo de individuação, nosso desapego não é em relação às coisas, mas sim às ilusões que criamos acerca dos valores das coisas. Assim, para alguém que busca sua individuação, o casamento em si, o ato de ter filhos em si, não é algo que deve ser desprezado, desvalorizado. Nestes casos, devemos nos desapegar é da ilusão que criamos de que fazer estas coisas fará com que nós esqueçamos de nós mesmos; devemos nos desapegar da crença de que estas coisas irão preencher o lugar que só cabe a nós mesmos preenchermos num processo de amadurecimento, de sabedoria, de autoconhecimento, de individuação.

  2. Nathalia, que texto ótimo! Adorei! Só vivemos plenamente quando nos tornamos responsáveis por tudo que nos acontece, mas me fica um pensamento, talvez até uma dúvida: E para as pessoas que não tem boa fundamentação do que é um amor ‘saudável’? E o que é este amor libertador?

  3. Esse processo de individuação me parece similar ao conceito de estoicismo, ou seja, prega-se em maior ou menor grau, indiferença ao que externo ao ser ou simplesmente desapegar-se as coisas materiais e as pessoas. Diz-se que devem ser abolidos ideais como: casamento, filhos ou um bom emprego porquê isso são necessidades ‘egóicas’. Porém, o que isso quer dizer? Você enxerga impeditivos da pessoa atingir uma ‘plenitude’ enquanto ser ao almejar tais coisas?

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