Animais, objetos e pessoas

(Rogério C Migliorini)

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Há alguns anos, uma colega e eu demos aulas para educadores da extinta FEBEM. Eles trabalhavam com os menores que residiam nas casas-abrigo da instituição e nelas atuavam como uma espécie de pais substitutos.

Nosso objetivo não era o de ensinar aos educadores nada que fossem utilizar com os seus “pupilos/filhos”. O nosso trabalho visava o bem-estar dos educadores em si, já que acreditávamos que essa mudança de “foco” influenciaria de modo positivo a relação deles com as crianças e adolescentes das casas.

Lembro-me de uma das minhas aulas que se apoiou no conceito de objeto transicional, na teoria do apego e em estudos sobre o amor em filhotes de macacos Rhesus. Essa base já havia me levado a realizar a montagem cênica Dorme, dorme, Frankenstein e voltou à tona recentemente no meu livro Curadores ferido e outros frankensteins: quinze apostas nos opostos.

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Também me lembrei disso porque mencionei em outro post experimentos em psicologia com cães, ratos e macacos, bem como os nomes Skinner e Pavlov. E finalmente, porque sou apaixonado por etologia, o estudo do comportamento animal.

Mas enfocando o que nos interessa, na sala havia inúmeras bolas grandes de ginástica. Em pares com uma só bola, os educadores precisavam caminhar até determinado ponto rolando pelo chão a bola de um para o outro. Entretanto, eles tinham que fazer tudo isso contando uma história sem palavras. Por exemplo: poderiam impulsionar a bola com suavidade ou com violência, e recebê-la com delicadeza ou com ares de pouco caso.

Nesse percurso, mesmo que nada tenha sido dito, o objetivo era que eles usassem a bola como um objeto intermediário, transferindo para o objeto seus sentimentos de afeto, raiva, hesitação, e assim por diante. Esse sentimento seria expresso no movimento inicial da ação corporal de passar e receber a bola. Assim, sem que eu tampouco falasse nada nesse sentido, o movimento expressaria algo concreto.

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Antes de encerrar a aula pedi que fizessem uma improvisação coletiva, quando deram muitos sentidos à bola e a aos seus movimentos.

Como havíamos previsto, os educadores se ouviram, e por terem se sentido gratificados e valorizados por uma atitude que em última instância favoreceu essa autoescuta, passaram a ouvir melhor seus jovens companheiros de jornada.

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