De deuses e religiões

(R. C. Migliorini)

teologia

Esta semana uma pessoa comentou que um texto que eu escrevi para este blog estava bom até eu colocar a palavra deus nele. Esta crítica demonstra que a palavra deus é polêmica nos dias de hoje. Por isso, vai aqui uma explicação mais detalhada.

Eu optei por usar a palavra deus até pela controvérsia que a cerca. Talvez, minha intenção tenha sido a de desmistificar deuses e religiões, um intento aparentemente incoerente já que as duas coisas habitam o campo da fé. Porém, crença e fé não são o eixo dessa discussão, como também não o foram no texto em questão.

Usei a palavra deus e falo de religião porque o fenômeno religioso ocupa as culturas humanas desde tempos imemoriais e, no mínimo, é importante o suficiente para não ser negligenciado. Nesse sentido, para alguns estudiosos a religiosidade nasce no instante em que o ser humano passa a enterrar seus mortos.

Tal preocupação parece não existir entre os animais. Outro dia vi um filme em que uma fêmea de babuíno lida com a morte de seu filhote. Ela carrega o corpo inerte durante dias em um comportamento inexplicável à ciência. Após exibir um comportamento aparentado com o “luto” humano, ela simplesmente deixa cair o corpo do filhote no chão. Dessa forma encerra seu “luto” e pode seguir com sua vida normal.

Note que, mais do que abandonar o corpo do filhote, ela simplesmente o soltou como largaria uma casca de banana. Não o depositou em nenhum lugar especial nem tampouco o arrumou em alguma posição específica.

Nós quase nunca agimos assim. Querendo ou não sempre tratamos o corpo humano com alguma deferência. Mesmo estudantes de medicina têm que demonstrar (não sei se oficialmente por meio de um juramento) uma atitude “respeitosa” diante de um cadáver humano. A morte ocorre longe do olhar do público e dos parentes do falecido e o mesmo se dá com o ato, propriamente dito, de se cremar um cadáver.

Cerimônias mortuárias as mais diversas existem em todas as culturas e religiões. Invariavelmente rituais de uma determinada cultura chocam pessoas de outras. A que mais me choca é um velho ritual indonésio em que o morto é colocado em um vazo, e o chorume da putrefação, recolhido e misturado à água do arroz que alimentará seus parentes. Tudo isso, é claro, tem uma explicação religiosa.

Em nossa cultura atual, a morte é pornográfica. E falar de deuses e religiões é quase tão pornográfico quanto.

3 pensamentos sobre “De deuses e religiões

  1. Kalina, refazendo minha resposta, é claro que a morte não é pornogáfica (aliás esse é o título de um livro e não um pensamento meu). Mas em nossa sociedade, ela é oculta, evita-se falar no assunto, e ela não é vista como algo natural, a pessoa que vai morrer é geralmente afastada do convívio com a família e morre, muitas vezes sozinha, no hospital. Muitas vezes nem os médicos sabem como lidar com ela, embora ela faça parte da vida diária deles. Assim, ela acaba sendo trarada como se fosse pornográfica.

  2. Oi Kalina, de certa forma é; ou melhor, tornou-se pornográfica. Na contemporaneidade as pessoas não lidam diretamente com o morrer, como faziam no passado em que o doente costumava morrer em casa e muitas vezes administrava sua própria morte. Agora, tudo ocorre nos hospitais e longe dos olhos das pessoas.

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