Xamãs da atualidade

(R. C. Migliorini)

xamas

Dias atrás vi um vídeo do cineasta, poeta e escritor chileno, Jodorowsky. Ali, ele relata que não vê nenhuma diferença entre cinema e poesia ou entre desnudar a alma e desnudar o corpo. Para ele, realizar uma obra implica em ser honesto consigo mesmo e em ouvir e expor o próprio coração.

Para mim, ser honesto consigo mesmo e com o público é uma das funções do artista. Ao mostra-se como é, o artista facilita o processo de autoconhecimento naqueles que compartilham de sua obra. Esse processo aparentemente narcisista faz com que uma obra ecoe no interior de cada um que a aprecie possibilitando que ele ouça a si próprio. E por fazer a pessoa ouvir a si própria, acho, a arte tida como subversiva.

Continuando a reflexão iniciada com a fala do artista chileno, dois filmes de uma mostra me chamaram a atenção. Em um deles se encontram na sala de admissão para a vida após a morte, um casal israelense e um rapaz palestino. Ao longo do filme descobre-se que o casal morreu por uma ação do jovem palestino. No instante dessa revelação, o marido israelense responsabiliza o rapaz palestino pela morte deles e por deixar órfãs as filhas do casal. Porém, se eles foram obrigados a deixar as filhas para trás, o palestino perdeu as suas em um bombardeio israelense. Em consequência, sua mulher se matou dias mais tarde.

Entretanto, o filme não responsabiliza essa ou aquela parte. Pelo contrário: mostra que a guerra fere e causa sofrimentos em ambos os lados.

Frase semelhante é proferida por um dos bailarinos de “Tu não Dançarás”, filme que explora os obstáculos enfrentados por três jovens judeus ortodoxos, dois também rabinos, ao montarem uma escola de dança moderna para homens religiosos. Coerentemente com a proposta da dança moderna, eles desejam, sobretudo, ouvir seus corações e expressar fisicamente suas experiências reais.

Um deles combateu na guerra do Líbano como membro do exército israelense. Sendo assim, vivenciou de modo muito intenso o horror e a dor da guerra. Ele busca colocar essa dor em sua dança.

Em suma, honestidade consigo, ouvir a si e negociar com o grupo cultural no qual estão inseridos, tudo isso perpassa a vida desses personagens, sejam fictícios ou não. Isso me lembra de que J. Campbell considera os artistas os xamãs da atualidade, pois têm por função, senão curar, ao menos facilitar o trânsito entre o mundo interior e o exterior.

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