Avanços e retrocessos

(R. C. Migliorini)

danca

Estou fazendo um curso chamado Dança sem Fronteiras com a Fernanda Amaral. Ao mesmo que, pra mim, voltar dançar é um imenso prazer, não deixa de ser frustrante.

Quando eu danço, não gosto de me confrontar com meu jeito de andar, pois ele não se harmoniza mais com os movimentos que eu faço com o resto do corpo. Certas horas, eu coloco o pé em um determinado lugar, tipo muito perto do outro, simplesmente para não cair. Nessas horas, a dança é totalmente secundária ou mesmo inexistente, pois a continuidade entre os meus movimentos é quebrada.

Tampouco gosto quando eu tento fazer um gesto preciso com o braço afetado, e ele meio que continua porque eu não consigo pará-lo. Por exemplo, tocar a cabeça de alguém pode ser uma tarefa delicada, sobretudo se o braço vier de cima, pois eu posso perder o controle do membro e aproximá-lo com muita força e rapidez da cabeça da outra pessoa. Assim, um toque que era pra ser suave pode virar um tapaço.

Porém, estar disposto a fazer um curso de dança, a movimentar o braço hemiparético e a sentir minha maneira de andar não deixa de ser um progresso, já que meses atrás eu não me disporia a fazer um curso de dança, exatamente porque ali essas coisas apreceriam.

O resultado dessas contradições é que no curso há dias em que sinto prazer, e dias em que me estresso, quando, então, eu preciso voltar para casa e me centrar. Daí eu recorro ao trabalho somático que eu faço com o Henrique Schuller e executo movimentos solos que, diga-se de passagem, também podem não ser muito confortáveis porque, querendo ou não, mente e corpo brigam dentro de mim. No entanto, nessas horas, o importante pra mim, é que eu estou só.

Concluindo: quando o desconforto aparece eu tenho que respirar, parar de brigar comigo mesmo, me aquietar e deixar as coisas acontecerem, o que de resto é o que eu deveria fazer sempre e o que a Fernanda fala para fazermos na aula. Entretanto, ouvir-se em meio a outras pessoas não é fácil; assim como tampouco o é ouvir-se quando se está à frente de uma situação.

Mas essa dinâmica me mostra que os processos não são lineares. Há avanços, sim, mas também há retrocessos, esquecimentos, bem como a volta aos velhos padrões. E está tudo bem em meio a um processo se sentir frustrado, desanimado, ansioso… Faz parte. Até porque foram esses sentimentos que deram início a ele e o que nos levam a avançar. Devagar; talvez, mas sempre.

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