Ressentimento: energia desperdiçada num “pote de mágoas”

(Nathalia Paccola)

infant

Se “o problema do outro é problema do outro”, esse texto chega exatamente para debater a compaixão.

Tenho observado a cultura do ressentimento. Como crianças, esperamos demais dos outros e das situações e pouco fazemos além de reclamar e de nos considerar vítimas. Em vez de insistir no “eu mereço…” como lamentação, deveríamos aprender a nos envolvermos também. A arregaçar as mangas não só para exigir, manifestar, reclamar, apontar, mas também para formar uma rede de pessoas resolutivas, envolvidas, dispostas a melhorar não o mundo, mas o pedaço a que pertencem. Sabe, tem muita coisa piorando a vida da gente. Mas fazer coro com aquilo que atrapalha, não resolve.

Entretanto, parece que só agora, depois de chateada, isolada e pensativa (sim, também tenho meus agudos momentos), consigo compreender a dimensão agressiva embutida neste prazer que temos em nos exibirmos, atrairmos olhares de admiração. Gastamos tempo e energia consideráveis com o objetivo de chamar a atenção das pessoas em geral – até mesmo daquelas que nos interessam pouco.

Vivenciei fato curioso nas últimas semanas. Uma aluna alertada por sua professora de que deveria recorrer à psicoterapia para avaliar uma premente depressão e casos de formação reativa, revelou-se um novo ser nos dias que se sucederam. Não obstante achar que a Fênix não passa temporada nas cinzas para renascer, reconheceu nas palavras humildes da mestre, energia para sustentar sua vaidade.

Vivemos nos comparando e quando nos sentimos menos do que “outros”, imediatamente nos sentimos humilhados. Fugimos da humilhação porque é uma das maiores dores que podemos sentir. Provavelmente, como parte ilustrativa do tema do texto e tentando não julgar, a estudante sentiu-se menosprezada, ao invés de sentir que havia um verdadeiro interesse da professora em fazer com que sua aprendiz buscasse um tratamento.

Mas a moça surtou. Arrumou um meio de persuadir outras colegas a se revoltarem, pesquisou e-mails, juntou-se em grupos, fomentou diálogos intermináveis, criou discórdias. Ela continua sem tratamento e conseguiu alguns seguidores na escola que freqüenta. Bem, semelhante atrai semelhante.

Numa sociedade competitiva e estimuladora da ambição, praticamente todos nós nos sentimos por baixo (humilhados) em algum aspecto que julgamos “essencial”. Somos todos movidos pela competição e estamos todos frustrados porque achamos que a cota de privilégios, de reconhecimento, que recebemos é insuficiente.

Nos tornamos rancorosos, amargurados e com sede de vingança: usamos nossas facilidades  com o intuito de nos vingarmos daqueles que nos humilham com as “qualidades” que não possuímos.

O fenômeno é quase universal: todo o mundo fica com raiva de todo o mundo. Todos aqueles que podem sentem a humilhação e tratam de se vingar exibindo seus dotes.

Mas atenção: ao tratarmos isso como inevitável, teremos que constatar que tais processos, que estavam a serviço do aprimoramento e perpetuação da nossa espécie, agora é o esperado, é o resultado da ação, é o que se conclui da evolução.

Acredito ser essencial aprofundarmos a reflexão acerca da vaidade e da competição, da ênfase que temos dado às qualidades excepcionais que só uns poucos podem ter e de quanto tudo isso é, de fato, inexorável. Um elemento básico para alcançarmos alguma serenidade consiste em nos livrarmos das mágoas e ressentimentos que povoam nossa subjetividade.

Nem sempre é fácil reconhecermos os fatos que nos provocaram enormes ressentimentos: muitos foram causados por nossos amigos mais queridos. Qualquer pequeno avanço nesse estado já garante um grande alívio.

(Texto livre, adaptado de reflexões pessoais, artigos sem divulgação do autor e de obras de Flávio Gikovate)

Um pensamento sobre “Ressentimento: energia desperdiçada num “pote de mágoas”

  1. Engraçado como o amadurecimento independe da idade do indivíduo, vemos em alguns marmanjos alguns traços do que revela o texto. Acredito que o passo inicial para a mudança está na admissão, quando admito meu problema procuro ajuda, é o que a estudante citada não fez.

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