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É DE ESPERA QUE A VIDA SE CONSTRÓI

(Padre Jeferson Luis Leme)

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Queridos irmãos e irmãs do nosso blog, é com gratidão que me dirijo a vocês que estão se preparando para a maior festa dos cristãos. Celebrar o Natal.  A vida é uma espera. Esperamos muito tempo para sermos o que somos hoje e talvez ainda não nos demos como satisfeitos. Espera e desejo são como mutações da vida. A verdade mais profunda do ser humano, é que somos um ser de desejos. Temos desejos de tantas coisa. O desejo renasce a cada buraco preenchido e, de busca em busca, seremos impulsionados para o termo de nossas vidas, quando ainda insaciados e sem ter encontrado neste mundo o que buscávamos, nos projetamos para o infinito, onde esperamos por algo que sacie a sede de uma vida.

Advento é tempo de situar o desejo humano no horizonte de Deus. É tempo de expectativa pelas “coisas do alto”, onde se pode verdadeiramente saciar a sede da existência, bebendo água da fonte. O “desejado” que no Natal se aproxima já se insinua no próprio ato de espera, ou no desejo que lateja. Esse período é a imagem simbílico-temporal da vida humana, orientada para uma realidade que vem se aproximando à medida que rumamos para ela com nossos pequenos esforços, nossas labutas, nossos clamores. É Natal!!!!

O natal é a festividade do nascimento de Jesus, isto é, uma ocasião privilegiada para celebrar e amadurecer na fé e na vida. Infelizmente, preocupados com tantos afazeres do dia a dia, esquecemos o significado do que celebramos. Na verdade celebramos a boa notícia do nascimento do Salvador.

Natal é celebrar a gratuidade. Jesus se fez um de nós por iniciativa própria, por isso, somos chamados a imitá-lo, aprendendo a servir gratuitamente, sempre que possível, não caindo na “falsa solidariedade”. Natal é celebrar a generosidade. Sem que pedíssemos, Jesus veio ao nosso encontro. Somos convidados a imitá-lo aprendendo a agir em favor de todos, e não apenas em proveito próprio. Natal é celebrar a vida. O Filho fez-se um de nós, devolvendo-nos a vida que havíamos perdido pelo pecado. Em Jesus temos a vida em plenitude pelo seu nascimento. Somo chamado a imitá-lo, promovendo e defendendo a vida, desde sua origem até o seu fim natural. Natal é celebrar a misericórdia. Jesus, através de seu nascimento, abriu-nos o coração misericordioso de Deus. Nele encontramos acolhida, conforto e esperança. Hoje somos chamados a imitá-lo, praticando o bem a todas as pessoas, sem exceção.

Natal é celebrar a alegria. No seu nascimento, Jesus trouxe-nos a alegria de sermos filhos e filhas de Deus. Dele recebemos um pai, que é Deus. Sendo filhos e filhas de Deus, devemos aprender a viver com alegria a nossa fé. Natal é celebrar a conversão. O Filho fez-se um de nós, chamando a todos para abandonar o mal e escolher o bem. Ao trocar de vida, trocamos de caminho, fazendo em tudo a vontade de Deus. Hoje somos chamados a imitá-lo, convertendo-nos diariamente, até o nosso encontro definitivo com Ele que é o maior desejo do ser humano. Natal é celebrar a luz. No seu nascimento, Jesus iluminou a humanidade a partir de Israel, o povo da Aliança. As trevas foram vencidas pelo esplendor do menino Deus. Devemos imitá-lo iluminando e transformando, com nosso testemunho, a injustiça em justiça, o desamor em amor. Natal é celebrar a . Jesus nasceu apontando-nos a fé como caminho terreno para o encontro com Deus. Quanto maior a fé, maior a presença e a comunhão com Ele. Hoje somos chamados a imitá-lo, amadurecendo na crença e na adesão a Deus. Natal é celebrar a comunhão. O Filho fez-se um de nós, comungando conosco sua divindade e assumindo a nossa humanidade, fragilizada pelo pecado. Hoje somos chamados a imitá-lo, estando em comunhão permanente com Deus e com o próximo. Por fim Natal é celebrar o amor. Jesus nasceu em Belém como expressão máxima e íntima da presença divina para a humanidade. Portanto, somos chamados a imitá-lo, amortizando todo o nosso relacionamentos, a começar pelas nossas famílias.

Como será o seu Natal neste ano? O menino Jesus encontrará lugar e abrigo em seu coração e em sua família? O seu Natal será de fato cristão, isto é, terá Jesus Cristo com o centro da festa? Alegria, paz, acolhida e perdão farão parte dos presente e ingredientes para o Natal que você oferecerá às pessoas, especialmente à sua família e comunidade?

Que o menino Jesus possa nascer nos corações. Que haja paz, alegria e harmonia na vida de todos nós. Desejo a todos um Feliz e Santo Natal. E que 2014 seja abençoado e agraciado por Deus!!!!

(Nota do editor do blog: Esse texto expressa a ideia de seu autor)

Angústia em relação a morte

(Padre Jeferson Luis Leme)

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(Texto bíblico: Mt. 26, 36 – 45)

O texto que escolhi para nossa reflexão, relata a angústia que Jesus passa diante da insegurança, do medo da morte. Angustia que todos nós passamos diante de uma situação de morte, ou seja, quando estamos num velório de um ente querido que acaba de falecer. Ainda mais quando a morte de uma pessoa muito próximo, nos leva a refletir que um dia nós também iremos passar pelo “processo” da morte. Aí vem a angustia que nos leva ao nada.

Na psicanalise, sinal de angústia é a expressão usada por Freud para designar um dispositivo racional que o ego põe em ação diante de uma situação de perigo, para evitar ser dominado pelas excitações desagradáveis. O sinal de angústia reproduz de forma atenuada a reação de angústia vivida primitivamente numa situação traumática, o que permite desencadear operações de defesas. Freud também fala sobre a angústia automática que é a reação do sujeito sempre que se encontra despreparado e submetido a uma situação traumática, isto é, submetido a um afluxo de excitações, de origem externa ou interna, em que é incapaz de dominar. Para Freud, a angústia automática opõe-se ao sinal de angústia que é a preparação racional para evitar a Angústia Automática.

Para Heidegger, é o nada que nos leva a angústia. Pois, o nada é a plena negação da totalidade do ente. O nada se revela na angústia, mas não enquanto ente. O nada nos visita juntamente com a fuga do ente em sua totalidade. Na angústia se manifesta um retroceder, esse retroceder recebe seu impulso inicial do nada. A nadificação não é nem uma destruição do ente, nem se origina de uma negação. O próprio nada nadifica.  É a experiência do nada, não intelectual, mas emocional, que gera o sentimento de angústia (aceitação da própria finitude).

A aceitação da própria finitude é importante para todos nós. Jesus passa pela experiência da angústia e aceita sua finitude como homem. Por isso é importante ter um sentido para vida. A morte é, em si, desesperadora para todos, até mesmo para os animais, e parece só não sê-lo para os que vivem a vida com extraordinária grandeza e na luz de uma grande fé. Esta fé, diga-se a bem da verdade, não precisa ser religiosa ou transcendente, com a qual se acredita e professa explicitamente a Deus e a existência de uma vida pós-morte.

Qual é a nossa angústia? Primeiro, a vida é um valor, em si, e uma graça, a mais palpável de todas, e quanto mais se encarece seu valor, menos se deseja perde-la. Segundo, quase ninguém se sente preparado para morrer, e à morte se seguirá, nos dizem as religiões, a hora-da-verdade, uma espécie de ajuste de contas, o juízo de Deus. Terceiro, dá medo saltar no escuro, no desconhecido, que é morrer. Mesmo que a vida não tenha sido aquela maravilha. Quarto, o mais grave, alguns pregadores estão longe de passar uma imagem positiva de Deus que encontraremos após fechar, em definitivo, os olhos para este mundo. E quinto, morrer é perder, e perder total e irremediavelmente o que já estamos perdendo, embora a conta-gotas, dia após dia. Esta é a lógica da vida que morre. O ser humano é único ser que sabe de sua mortalidade e convive com o fantasma da finitude, do sofrimento, da morte.

A morte, que ocorrerá num momento, sendo a última experiência humana de toda uma vida, é apenas o passo derradeiro de uma caminhada. Na verdade, vivemos morrendo a cada dia. Morrer, por isso, não é uma tragédia, quando se aprende a morrer, com consciência, a cada dia que se vive e, simultaneamente, morre.  O homem, por ter consciência de sua finitude, passa a vida preocupado com o tempo, na intenção de ter controle sobre a própria vida. Diante da finitude da vida e tendo consciência da vida e da morte, lidamos com a nossa fragilidade como pessoas e aprendemos a cultivar o hábito do cuidado.

Com esta fragilidade consciente, descobrimos que a vida, por não ser eterna, cobra atitudes responsáveis. Afinal, não podemos perder tempo e vivemos com responsabilidade para conseguir dar para a vida e tirar dela, da maneira mais urgente possível, aquilo que desejamos. Para Frankl a pessoa humana tem um Deus, uma religiosidade inconsciente. Segundo Frankl, cada pessoa tem uma instância que não é atingida por nenhuma patologia, é incorruptível e lúcida ainda que a doença e o sofrer sejam infinitos. Esta é a dimensão no ética (dimensão espiritual do homem), a espiritualidade imaculada, o Deus vivo na intimidade da pessoa humana.

A vida está repleta de oportunidades para dotá-las de sentido. A vida humana tem sentido sempre e em todas as circunstâncias, e esse infinito significado da existência também abrange sofrimento, morte e aflição.  … nossa luta, nossos esforços não perdem seu sentido e dignidade (Viktor E. Frankl).

 

 

 

Auto-estima estável

(Padre Jeferson Luis Leme)

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Texto bíblico: Mc 12, 13-17.

Já parou para avaliar sua auto-estima? Sabia que dependendo das nossas atitudes, a auto-estima sofre alterações? A leitura do Evangelho nos convida a buscarmos um equilíbrio diante das nossas atitudes e principalmente a conduta. “Devolver a Cesar o que é de Cesar. E a Deus o que é de Deus”, é a resposta que Jesus nos dá diante das dificuldade, desafios e frustrações que a vida nos proporciona.

É dever nosso buscar um equilíbrio estável da auto-estima em nossas vidas. Estar com a auto-estima alta ou baixa não é bom para a nossa convivência com as pessoas. Quando estamos com a auto-estima alta, desenvolvemos uma alta expectativa de receber reconhecimento dos outros para estarmos feliz. – Provavelmente seremos reativos, ao sermos contrariados pelos mais fracos – lado demo e passivos, lado anjo, com os mais fortes, com aqueles que podem nos prejudicar. Dificilmente negociaremos com os outros e só desenvolveremos a empatia se houver algum interesse de recebermos algo. Provavelmente, quando mantivermos cronicamente nossa auto-estima num nível elevado, superdimensionado, de energia emocional estabeleceremos alguns dos comportamentos egocêntricos como a vaidade, a arrogância, a prepotência, o orgulho, a presunção etc. Agiremos com hipocrisia, com predominância do lado anjo que busca reconhecimento, agindo de forma imatura e passiva para não perder a estima, a aceitação e o amor dos mais fortes, mas geralmente por trás agiremos como um demo, criticando, falando mal etc.

Caso estamos com a auto-estima baixa, desenvolveremos uma alta expectativa de receber segurança, atenção cuidados etc, dos outros para estarmos felizes. – Provavelmente agiremos com passividade. Como Anjo perante os mais fortes, lado anjo que busca proteção e preservação, entretanto, provavelmente seremos reativos por trás, lado demo. Nisso nos leva ao sentimento como a covardia, egoísmo, ciúme, preguiça, inveja, mágoa, culpa, tristeza etc.

E quando estamos com a auto-estima estável, que é o ideal para todos nós, teremos uma baixa expectativa de receber segurança e reconhecimento da vida para estar feliz. – Predominância do Ego que se avalia empaticamente. Provavelmente agiremos de forma educadora, pacífica e empática. A auto-estima estável é a resultante do estado de negociação do ego com as suas e com as necessidades dos outros. Provavelmente, ao mantermos a nossa auto-estima, num nível mais estável de energia emocional, estabelecermos os seguintes comportamentos: capacidade de compreensão, tolerância, paciência, cooperação, amar mesmo não gostando.

Procure estabilizar a sua auto-estima frente às adversidades, reduzindo as suas expectativas de receber segurança e reconhecimento da vida para estar feliz: através das pessoas, das coisas e dos sistemas. Sofreremos menos e procuraremos não fazer os outros sofrerem, pelo desenvolvimento da compreensão: da paciência, da tolerância e da resignação. Exigiremos muito mais de nós e menos dos outros, entretanto, não desenvolveremos a culpa doentia, nos perdoando pela compreensão que possuímos da importância, para a nossa evolução, de cada queda na vida. Como está a nossa Auto-Estima?

Aprender a arte de perder (Inspirado dos escritos do Frei Neylor Tonin)

(Padre Jeferson Luis Leme)

Texto bíblico: Lucas 18, 31-330

Amor- acabou

Como é difícil perder. Não só é difícil como também não admitimos a derrota. Todo mundo sabe que não é bom perder, e muito menos só perder, mas não se pode pretender ganhar sempre. Um eterno derrotado corre, quase que inevitavelmente, o risco de um azedume sem tamanho, enquanto que a volúpia de vitória a qualquer custo pode ser expressão de uma postura pouco sadia e normal. Buscar sempre a vitória, aliás, é marca registrada de temperamentos duros e intolerantes, próprios de tiranos, que não conseguem viver sem aplausos e sem cortejo. Por isso é imperioso vencer paradas e adversários. Essas vitórias, no entanto, não lhes proporcionam nem paz nem alegria, pois vivem derrotados diante de si mesmos.

Mais do que derrotas ou vitórias, sempre relativas, sobre coisas e causas passageiras, é o aprumo espiritual e a dignidade pessoal que devem ostentar vencedores e derrotados. A grande e única derrota a ser evitada é a de nível interior, a derrota do caráter. Podemos ser derrotados, mas não podemos fazer-nos uma derrota, o que teria consequências trágicas em nossas vidas. Por isso a importância de não perder a linha e o passo, de não se deixar acender, mas de agir com grandeza em quaisquer circunstancias, nunca contra os outros, porém sempre em favor de causas nobres e de grandes ideais; só isto é que nos ensinaria a arte de perdermos sem nos autoderrotar.

Um exemplo disso é a pessoa de Jesus Cristo, que foi destruída, viu se frustrarem seus sonhos, seus ideias e as sementes do Reino que pregava, mas não perdeu sua fé no poder de Deus. Morreu reconciliado com seus algozes e com Deus, embora vencido.

Tanto quanto vitoriosos em coisas e causas, somos todos, em menor ou maior escala, grandes perdedores. Perder não é nenhum desdouro. É condição de vida, é pão nosso de cada dia. Para não vivermos como perdedores temos que aprender a arte de perder sem nos lamentar perdidamente e lutarmos para fazer de nossa vida um exercício de crescimento e maturação.

“O navio no estaleiro está seguro. Mas os navios não foram feitos para isso” (William Shed). A necessidade de segurança em nossas vidas é fundamental e motivadoras para nossa luta. Viver é risco. Vencer, ser vitorioso, correr o risco de perder e ser derrotado. Não há segurança absoluta. Assim como os navios, também nós não somos feitos para vivermos seguros em um estaleiros. Precisamos explorar a vastidão da vida, ganhando e perdendo, ousar viver. Senão tudo fica sufocante. Quem quer viver sabe quão perigosa é a vida, não só pelos perigos que vêm de fora, mas os perigos que carregamos nos abismos de nossas almas, a escuridão e o desamparo, a solidão e as aflições e as derrotas.

Devemos em nossa vida abraçar nossas derrotas, abraçando-se. Não deixemos de sorrir suavemente, quando a arte de viver nos pede a sabedoria de saber perder. “Aprendi com a primavera a me deixar cortar para voltar sempre inteira” (Cecília Meirelles).

Deus é amor

(Padre Jeferson Luis Leme)

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Texto bíblico: 1Jo 4, 7-1

Muitos acreditam que Deus não existe. Como provar? Aos que digam que Deus não existe pelo fato da violência, da brutalidade contra a vida humana e a desigualdades que existem no planeta. Aos que digam que Deus é uma simples invenção do homem para a manipulação das massas. Bom tudo isso passa pelas nossas mentes, porém, quando o “sinto aperta” recorremos a Deus. É a partir daí que vamos falar um pouco sobre esse Deus que é Amor.

O autor da leitura da Palavra nos fala que o critério para sermos filhos de Deus, é o amor. “Amemo-nos uns aos outros, já que o amor é de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. Quem não ama não conheceu Deus, porque Deus é amor”. Aqui o verbo “conhecer” tem a profundidade bíblica da experiência e do contato pessoal. O conhecimento de Deus, que é a fé e o amor dão a cada um de nós, é imensamente superior ao intelectualismo filosófico ou gnose platônica.

Na Bíblia, na teologia cristã e na histórias das religiões e da filosofia há múltiplas definições de Deus: São João diz que Deus é amor. Eis aqui uma definição sempre atualizada e uma teologia inteligível para o homem de todos os tempos e lugares. É a partir da revelação do Deus-amor havia de nascer o cristianismo-amor de Jesus.

Dizer que Deus é amor é afirmar que não é só uma pessoa que ama, mas que é o amor mesmo em pessoa. Por isso, como poderemos ser filhos nascidos de um Deus que é amor se não amamos nós também? E como poderemos dizer que o conhecimento se não amamos a ele e aos filhos, os homens?

Nesse sentido, podemos dizer que a crise de amor é crise de fé, porque a fé cristã é acreditar em Deus que é Amor, com maiúscula, e a fonte transbordante e inesgotável do mesmo. Daí a afirmação de São João: todo aquele ama nasceu de Deus e conhece-o. É o amor que facilita o conhecimento das pessoas e a aprendizagem das coisas, das profissões e dos ofícios. Nesse sentido, quando uma pessoa ama o seu trabalho, dizemos que tem vocação para ele; é o amor que lhe dá a competência e a ajuda a decifrar mistérios inexplicáveis.

No diálogo da fé que leva ao conhecimento de Deus, é ele que tem a iniciativa; isto é, é o primeiro que ama, oferecendo a sua amizade e admitindo-nos no círculo aberto do seu amor trinitário para fazer-nos seus filhos e filhas por amor. São Paulo, que refletiu muito sobre tudo isso, afirma que “Deus escolheu-nos, na pessoa de Cristo, antes de criar o mundo…, e destinou-nos, por pura iniciativa sua, a sermos seus filhos. O tesouro da sua graça… foi uma riqueza para nós” (Ef 1, 3ss). Por isso, definir Deus como amor não é uma mera gratificação afetiva nem uma efusão poética, mas sim, uma realidade fascinante.

 

 

 

A alegria de Deus

(Padre Jeferson Luis Leme)

Quando falamos de Amor, Perdão, Culpa e Misericórdia, torna-se difícil o relacionamento e o diálogo com as pessoas. É evidente que a nossa convivência cada vez mais está distante da dinâmica do Ciclo do Amor. Lembram quando expus sobre isso? Humildade, Compreensão e Doação. Precisamos praticar gradativamente em nossas vidas.

A proposta do Evangelho de Lucas é sobre a misericórdia de Deus. As parábolas ressalta o júbilo e a alegria de recuperar o que estava perdido, graças à salvação de Deus. Deus não faz distinção das pessoas, ou seja, Ele acolhe com sua misericórdia. Porém, nós precisamos aprender com Jesus à acolher. Assim como diz Paulo aos Romanos, “porque julgas teu irmão?”, não devemos julgar e nem condenar. No entanto, devemos trabalhar com o perdão e a misericórdia.

Perdoar significa avanço psicológico e espiritual em nossas vidas. É restaurar o outro e o mundo inteiro. Quando perdoamos o outro, estamos inconscientemente dando um tempo ao nosso próprio eu. Isto é, nosso superego se torna no ato do perdão, menos exigente, menos carrasco. O eu se torna mais leve e saudável. Lembre-se que tratamos as pessoas conforme o superego nos trata. Quando perdoamos, automaticamente nos apaziguamos.

A misericórdia divina é uma das constantes bíblicas e resumo de toda a história da salvação humana por Deus, que culmina em Cristo, imagem e espelho do rosto misericordioso do Pai.  No livro da Sabedoria (Sb 11, 23ss), diz que Deus se compadece de todos porque pode tudo, fecha os olhos aos pecados do homem para que se arrependa, perdoa e ama todos os seres que ele mesmo criou por amor, ele que é amigo da vida.

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O perdão é um processo gradual, lento, doloroso, em que muitas vezes precisamos vivenciar angústias, indignação e sentimentos contraditórios. Conflitos, ambivalência, medos, raiva, culpa podem ser mobilizados, e não devemos reprimi-los excessivamente. Com tudo isso, podemos usar erroneamente a Fé como fuga. Isto é, a fé pode ser utilizada como válvula de escape para a pessoa não se dar conta de sua própria agressividade. E perdoar pode se transformar em compulsão a reprimir a agressividade sentida, mediante a ofensa recebida.

Com as suas parábolas da misericórdia e mostrando a alegria contagiosa de Deus por salvar o perdido, Jesus denuncia toda a discriminação de classes e a sua consequência: a marginalização a todos os níveis. O puritanismo não é cristão nem libertador, antes representa mais a inversão dos valores evangélicos, como falso sucedâneo que é da autentica pureza do coração. O que mancha, diminui e rebaixa o homem não é o de fora, mas o que sai do coração. Que a alegria de nosso Deus seja a nossa força. Amem!

 

 

 

Dois tipos de religiosidade

(Padre Jeferson Luis Leme)

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 Texto bíblico: Evangelho: Lc 18, 9-14

Ultimamente estamos ouvindo o discurso do Papa Francisco falar sobre humildade, solidariedade, fraternidade e principalmente a Misericórdia de Deus. Será que nós estamos de fato atentos ao discurso do Papa? Ouvir é uma coisa, agora colocá-lo em pratica e totalmente outra. O Evangelho proposto pra nós é sobre a forma que nos comportamos diante de Deus através da oração. Oração que nos leva a Deus. Sendo assim, a oração necessita da perseverança, escuta diária da Palavra e o fortalecimento da fé.

A fé é a trave da porta de entrada do Reino anunciado por Jesus. Os batentes que a sustentam são a oração e a humildade. Sem a primeira, a fé morre de asfixia; sem a segunda, incha de presunção. Logo, Jesus fala da qualidade da oração que é a humildade. Precisamos ter a consciência que a nossa presunção e riqueza são suficientes para excluir-nos do Reino. Seremos, porém, humildes se nos reconhecermos no fariseu, e pobres se nos reconhecermos no rico.

Estamos diante de dois modelos de fé e de oração. O fariseu convencido da própria bondade, justificando-se e condenando os outros, e o publicano sente-se longe de Deus e não encontra motivo para confiar em si mesmo. Os personagens do Evangelho estão sintetizados nestas duas figuras que representam, respectivamente, a impossibilidade e a possibilidade da salvação. Sendo assim, nós – com consciência – somos irmãos gêmeos do fariseu, que se considera justo e que Jesus quer converter em réu confesso, a fim de que acolha a graça.

Em todo sonho – ensina a psicanálise – há três personagens realmente importantes: eu, que observo; um outro, que eu reconheço… e um terceiro, que eu nunca me lembro! Este é justamente o mais importante, o meio-termo entre eu e o outro, o único capaz de revelar-me o que eu não posso ou … não quero ver. É precisamente este personagem inatingível que Jesus mostra ao fariseu como que num espelho: o publicano (=pecador), no qual o fariseu não quer se reconhecer, é a parte mais profunda do seu eu, que ele não aceita.

O Evangelho de Lucas revela para nós que o justo(fariseu) é condenado porque, em seu esforço por observar as prescrições da Lei, passa por cima do mandamento do qual brotam: o amor a Deus e ao próximo. O pecador(publicano) é justificado, porque reconhece que não é capaz de amar a Deus e ao próximo, mas sabe-se amado. Este é o escândalo do evangelho: poder aceitar nossa realidade de pecadores na realidade de Deus que nos ama incondicionalmente. Não somos amados por sermos justos, mas somos justificados por sermos amados. Não são os nossos méritos que contam, mas o amor do Pai que, tocando-nos, nos transformam em santos e santas!

Portanto, é preciso ficarmos atentos em nossas atitudes diante das pessoas e de Deus. Pois somos sempre tentados a julgarmos. Oxalá se nós praticássemos a humildade em tudo, o relacionamento e a convivência no trabalho, na família, na Igreja e na sociedade seria melhor. Lembremos do Ciclo do Amor; humildade, compreensão e doação.