Arquivo por Autor | Karen Câmara

A saúde do imperador-criança

(Dra. Karen Câmara)

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A China foi um império durante milhares de anos. O imperador era considerado a pessoa mais importante do país, inclusive com atributos que o aproximavam de uma divindade. A segurança do imperador era tão crucial que toda uma cidade foi construída em volta do seu palácio, aquilo que hoje se chama A Cidade Proibida em Beijing.

A educação e a saúde do imperador eram de suma importância. Se alguém viu o filme  O Último Imperador do diretor italiano Bernardo Bertolucci, deve se lembrar de uma cena em que o imperador ainda era criança e suas fezes aparecem dentro de um penico.  O médico olha, movimenta o cocô dentro do penico para ver sua consistência, cheira os excrementos e então diz:  “Menos carne”. Ele queria dizer que a alimentação do imperador-menino devia conter menos carne. O médico examinava as fezes do menino para poder ajustar corretamente sua dieta. As ordens do médico deviam ser seguidas pela cozinha do palácio. O imperador-criança tinha que comer o que fazia bem para sua saúde e não apenas o que lhe agradava. Sim, porque a preservação de sua saúde era assunto de Estado. Todo o império dependia dele e de suas decisões. Mas, veja bem, a saúde era preservada. Dizem que os médicos do imperador só recebiam seus honorários enquanto o imperador estivesse com boa saúde. Quando o imperador adoecia, os médicos deixavam de receber seu pagamento. Isso, é claro, era um incentivo para que os médicos se concentrassem muito mais em preservar a saúde do que em curar as doenças.

Educação e Saúde estão tão interligadas, tão entrelaçadas que é difícil dizer qual é mais importante. A meu ver, Educação vem primeiro. Através da Educação é possível melhorar, e muito, a Saúde. As crianças precisam das duas coisas desde o início e, para isso, as mães têm que ser educadas. São elas que cuidam das crianças nos seus primeiros anos de vida. São elas que formam as próximas gerações. Portanto, para criar as crianças, precisamos educar primeiro as mães.

Outro dia uma mãe me disse que a filha, de seis anos, tinha prisão de ventre crônica e muitos gases. Sofria de frequentes dores na barriga e não conseguia evacuar bem. Quando conseguia, eram fezes duras e ressecadas. Perguntei o que a criança comia e a mãe disse que era principalmente arroz, macarrão, pão e bolachas. “Só?”, perguntei eu. “Acontece que ela não gosta de verduras, legumes e frutas”, me respondeu a mãe.

É claro que a filha tinha prisão de ventre. Com essa dieta, seria difícil não ter prisão de ventre. O que está faltando aqui? Educar a mãe, que parece não saber como alimentar a criança. Ora, criança não deve comer apenas o que quer. A mãe tem que saber o que faz bem  à saúde da criança, assim como os médicos do imperador. A mãe deve ajustar a dieta às necessidades da criança. É claro que também tem que adaptá-la ao gosto da criança.  Mas essa mãe não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo e muito menos de como proceder. Então, por conta própria, dava este e aquele medicamento para a criança e nada resolvia. Não resolvia porque ela estava querendo eliminar os sintomas ao invés de lidar com as causas do problema. O problema era a dieta. Uma dieta pobre em fibras, rica em farinha branca, cheia de açúcar refinado, sem as fibras proporcionadas pelas frutas, verduras e legumes. Investiguei mais um pouco, vi que a criança tomava pouca água e bastante refrigerante. Como se não bastasse, fazia pouco exercício físico, ainda mais depois que passou a ter dores na barriga causadas pela prisão de ventre. Estava, então, completo o quadro para que desenvolvesse uma bela constipação intestinal: dieta pobre em fibras, ingesta inadequada de água e pouco exercício físico.

Como solucionar isso? Segundo a mãe, com medicamentos! Sim, por falta conhecimentos, ela dava remédios para a filha, crente que estava fazendo o melhor. Cada vez que ia à farmácia, o balconista lhe empurrava mais um medicamento e ela, toda esperançosa, dava para a criança. Como isso não resolvia o problema, ela achou que os medicamentos eram ineficazes. Foi aí que o caso chegou até mim.

Conversei com a mãe, expliquei que o problema da criança poderia ser resolvido sem uso de medicamentos. Bastaria fazer algumas mudanças na dieta e no estilo de vida. A mãe aceitou as sugestões, implementou as mudanças e depois me disse que a filha havia melhorado.

A mãe teve que ser educada para que a saúde da criança melhorasse.

Falando em Educação, terça-feira foi Dia do Professor. Parabéns a todos eles!

 

 

“Virei paciente”

(Dra. Karen Câmara)

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Não gosto que minha rotina seja quebrada ou bagunçada de repente, sem meu consentimento, sem aviso prévio. Acho que ninguém gosta.

Na segunda-feira passada tive uma sessão de terapia que provocou um abalo sísmico dentro de mim. Eu era a analisanda, não a analista. De repente algumas placas tectônicas internas se moveram, enxerguei uma porção de coisas, fiquei agitada, desarrumada por dentro, os pensamentos confusos.

Saí da terapia e fui direto para o trabalho. O enfermeiro que trabalha comigo viu que eu estava meio estranha e começou a verificar meus sinais vitais: pressão arterial, frequência cardíaca, glicemia. A pressão subiu. O coração não só acelerou como passou a bater fora do compasso. Os pensamentos ficaram confusos e se manifestavam em uma fala repetitiva, sem muita lógica.

Pois é. Somatizei. Converti.

Claro que eu queria continuar meu dia conforme o costume, mas não me deixaram. O enfermeiro chamou minha filha, que foi me buscar no trabalho e me levou direto para o hospital. Passei por vários médicos, todos com um jeitinho muito simpático, mas com idade para serem meus netos. Eu, num mau humor daqueles, questionava tudo, discordava de tudo, só queria ir embora para casa. Eles tateando, tentando me tourear, talvez meio intimidados pelo fato de eu ser médica e ter cabelos brancos. Olhei os CRMs nos carimbos: todos altos, três vezes maiores que o meu, todos formados há pouco tempo. Depois de uma verdadeira campanha de convencimento, fui internada, muito a contragosto. Sabe aquela situação em que você diz “aceito, mas não concordo”?

No dia seguinte, depois de uma noite péssima, eis que surge um médico que parecia bem mais velho que eu.
“O que você teve?” ele perguntou.

“Uma arritmia e uma suspeita de AIT”, disse eu. (Obs: AIT quer dizer Acidente Isquêmico Transitório, ou seja, um pequeno derrame).

Ele franziu a testa, cerrou as sobrancelhas, fez uma cara feia.
“Isso é diagnóstico! Eu quero saber dos seus sintomas!” disse ele peremptoriamente.

Baixei a cabeça. Murchei as orelhas. Fui para meu lugar. Naquela instante, naquele lugar, meu papel era de paciente. Cabe ao paciente, e só a ele, relatar seus sintomas. Cabe ao médico, e só a ele, elaborar hipóteses diagnósticas. É claro que os dois têm que trocar informações e um ajuda o outro. É uma parceria. Mas cada um no seu lugar.

De repente fui lembrada disso e, meu Deus, que alívio! Finalmente começou a verdadeira consulta, através do estabelecimento claro dos papéis e de suas funções naquela nascente relação médico-paciente. Alguém que vai me ouvir, que quer saber o que eu senti. Ele assumiu o papel de médico e me tratou como paciente, que era meu papel naquele momento. Me ouviu, me examinou com calma, viu meus exames anteriores com atenção. Explicou a gravidade do que eu tinha e os possíveis riscos. Estabeleceu uma linha investigativa. Disse quais os exames iria pedir e por que. Deu um prognóstico. Aprendi muito naqueles poucos minutos de visita.

Ufa, encontrei um médico de verdade! Como os de antigamente. Eles ainda existem.

Ele pediu um exame e colocou seu carimbo. Uau! Um CRM baixo!

Precisou surgir alguém com um CRM muito menor que o meu para me colocar em meu lugar.

É nessas ocasiões que percebemos que não somos nada, apenas desempenhamos papéis diferentes nas mais diversas
situações.

A ferida no pé e o programa “Mais Médicos”

(Dra. Karen Câmara)

Brasil doente

Volta e meia me perguntam qual é minha opinião sobre o programa “Mais Médicos”   que o governo brasileiro está tentando implantar no país.

Temos que examinar a situação de forma mais abrangente e há muitos aspectos        diferentes a considerar.

Não há falta de médicos no Brasil. O que existe é uma má distribuição desses                profissionais, que estão concentrados em regiões que têm mais recursos. O programa  “Mais Médicos” foi criado para tentar resolver a falta de médicos em lugares onde não  há médicos suficientes. São lugares que não foram ocupados naturalmente pelos  médicos brasileiros. A primeira pergunta a ser feita é: por que os próprios médicos  brasileiros não estão ocupando esses postos? Várias respostas me ocorrem: são locais remotos, pobres, sem recursos mínimos para a prática da medicina, com poucos atrativos para o estabelecimento do profissional e de sua família; são locais perigosos, como bairros onde a violência grassa; lugares onde não há infraestrutura básica, não há saneamento, água potável, acesso à educação; não há como recorrer a um colega especialista ou a um serviço com mais recursos quando necessário. Poderíamos discorrer longamente sobre essas razões mas esse não é nosso objetivo.

Vamos em frente. Eu diria que isso é apenas um detalhe de um problema muito maior.  Comparo a Saúde no Brasil a uma pessoa muito doente. Posso até imaginá-la como um paciente de meia idade que entra em meu consultório e cuja queixa principal é a dificuldade de andar porque está com feridas nos pés. Colho as primeiras informações sobre o aparecimento e a evolução do problema que o aflige. No exame físico, peço para que ele retire os sapatos. Vejo que o calçado não é adequado.  Ao examinar seus pés, tudo indica que se trata de uma micose complicada por uma infecção secundária.  Os pés estão mal cuidados, sem asseio, as unhas compridas e sujas, há feridas abertas, com pus, algumas regiões estão maceradas, o aspecto é feio, o cheiro é desagradável. Aquilo não surgiu da noite para o dia. Há semanas, ou mesmo meses, que está evoluindo. Pergunto-me por que não tratou antes, quando ainda não estava complicado? Olho para o paciente: é um desleixo total, está muito acima do peso, tem uma barriga grande e proeminente, é relapso em sua higiene pessoal, tem aspecto pálido e doentio. Fico sabendo, pela anamnese, que é diabético tipo 2, hipertenso e tem colesterol alto há vários anos. Não se cuida. Às vezes, quando a situação aperta, vai ao médico mas não segue sua orientação;  toma os medicamentos de forma incorreta e irregular, não se alimenta adequadamente, consome muito sal, muito açúcar, muita gordura animal.  Não pratica nenhuma  atividade física, não faz o menor esforço para emagrecer. O diabetes dele não está compensado, a hipertensão não está controlada. Diante das circunstâncias, sei que esse pé é um problema difícil de ser tratado. Não é apenas um pé com micose. É a conjunção de todos esses fatores que resultaram nesse pé.  Se esse pé não for tratado, a coisa pode complicar tanto que talvez precise até ser amputado. Mas, para que possa ser tratado com sucesso, não só a micose e a infecção locais precisam ser debeladas, como todas as outras condições devem ser abordadas e melhoradas.  Não adianta apenas prescrever antibiótico e creme local para micose. O diabetes e a hipertensão têm que estar sob controle. Por sua vez, essas doenças só estarão controladas se houver uso correto de medicamentos e mudanças no estilo de vida, como perda de peso, atividade física, alimentação adequada.

Sabe-se que as tão apregoadas mudanças no estilo de vida podem, em muitos casos, melhorar tanto essas doenças crônicas que o paciente necessita de cada vez menos medicamentos no seu dia a dia. Mas é possível convencê-lo disso?

O paciente não percebe, ou talvez finja não perceber, que tudo isso poderia ser resolvido, ou mesmo evitado, se ele se cuidasse, se tratasse melhor. É, em primeiro lugar, a forma como ele vê sua saúde e o valor que ele dá à sua vida que precisam passar por grandes mudanças.

Assim é a Saúde no Brasil. Está doente há muito tempo. Suas doenças são crônicas e agudas. São doenças da falta e do excesso. São doenças da riqueza e da pobreza. A visão que o governo e a maioria das pessoas têm sobre a Saúde no Brasil é míope. É essencialmente equivocada porque o sistema é muito mais baseado no tratamento da doença do que na promoção ou preservação da saúde.

Me parece que o programa “Mais Médicos” foi criado para tratar o pé, e apenas o pé, de um paciente há muito debilitado por diversas doenças crônicas e agudas.

Será que vai conseguir?

 

 

Qual é o poder da crença?

(Dra. Karen Câmara)

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Na semana que passou, conversei com uma mãe que me disse o seguinte:
“Meu filho está doente porque quer comer um sorvete e eu não encontro para comprar.”

Ela contou que o filho, de dez anos de idade, havia visto a propaganda desse sorvete na televisão e isso teria despertado nele tamanha vontade de consumir a guloseima que ele, agora, apresentava sintomas de dor na barriga e febre.

Ora, do ponto de vista médico, sabemos que dor é um sintoma subjetivo, não há como comprovar ou mensurar, mas a febre é um sinal objetivo, fácil de medir, basta usar um termômetro. Sabe-se também, no meio médico, que as crianças tendem a referir dor na barriga quando estão em situação de desconforto ou de estresse. Geralmente essa dor na barriga não é acompanhada de diarreia ou vômitos, dois sinais objetivos. Entretanto, enjoo e inapetência podem, com frequência, compor o quadro. Quando se pedem exames complementares como ultrassonografia, endoscopia, exame de fezes, nada de anormal é constatado. Entre os fatores desencadeantes mais comuns estão a ausência repentina, inesperada ou prolongada de um dos pais, conflitos no ambiente familiar, problemas na escola ou no círculo de amigos da criança. Esse quadro evolui de forma benigna e costuma desaparecer quando a situação estressante deixa de existir.

Perguntei à mãe da criança sobre possíveis causas psicológicas e ela declarou com firmeza que nada havia de diferente ou possivelmente estressante na vida da criança que pudesse ser a causa da dor na barriga. Só podia ser o sorvete.

Perguntei sobre a febre, se ela havia aferido a febre com termômetro. Ela foi muito clara:
“Sim, medi a temperatura dele várias vezes e deu 37,5°C, 38°C e até 38,5°C. A febre vai e volta. Às vezes ela só passa se eu dou remédio”.

Argumento que uma febre é sempre um sinal importante e deve ser investigado. Recomendo que leve seu filho a um serviço médico para ser avaliado. Ela não se deixa convencer, diz que o filho já esteve em consulta recentemente, exames foram pedidos e estão normais. A criança está perfeitamente sadia. O problema é o sorvete.

De sua parte, ela explica que vivem no sítio, são pessoas simples, de poucos recursos mas “nunca faltou o de comer”. Diz, com orgulho, que nunca deixaram a criança “passar vontade”. Parece querer dizer: “Somos bons pais, bons provedores, somos responsáveis, estamos conscientes de nossos deveres para com nossos filhos!”

“Mas agora, dessa vez,” ela acrescenta, “não foi possível fazer a vontade do menino. Já fui à cidade mais perto, procurei em todas as padarias e não consegui encontrar o sorvete para comprar. Então, ele ficou doente.”

Tento arrazoar de outra forma, dizendo que a criança tem dez anos e já possui entendimento suficiente para lidar com situações de frustração. Ela concorda, diz que o filho é uma criança calma, inteligente, sabe perfeitamente aceitar que algumas coisas não são possíveis mas isso em nada resolve o problema. O fato é que ele adoeceu porque está passando vontade de comer um sorvete que ela não consegue encontrar para comprar. E tem mais, toda vez que o filho assiste à propaganda, o desejo volta e ele apresenta novamente os mesmos sintomas.

A conversa terminou sem que se chegasse a uma solução. De um lado, a crença da mãe e, por conseguinte, da criança, que “passar vontade de comer” alguma coisa leva ao adoecimento. De outro lado, o poder de uma mídia televisiva que invade todos os lares e todas as cabeças, despertando vontades irresistíveis.

Uma amiga mais tarde me contou que a propaganda do sorvete é muito bem feita e está ligada a um super-herói que tem forte apelo emocional nas crianças.

Dois dias depois, soube que uma colega médica atendeu um caso muito semelhante. Desta feita, a criança tinha dois anos. Fiquei estupefata.

O que pensar disso? Até que ponto nossas crenças produzem sintomas físicos? Até que ponto adoecemos, física e mentalmente, porque nossos desejos não são satisfeitos?

Uma relação delicada

(Dra. Karen Câmara)

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O tema de hoje, a relação médico-paciente, é um assunto delicado e complexo. Decerto não será esgotado em poucas palavras. Pode-se escrever um livro sobre ele.

Há não muito tempo, a assistência à saúde, assim como a educação, não era considerada direito de todos e muito menos obrigação do Estado.  A relação médico-paciente era direta. O doente ou seus parentes estabeleciam a relação com o médico conforme suas necessidades e possibilidades. Quando uma pessoa ficava doente, procurava-se um médico, acertava-se o preço e pronto. Se o serviço fosse satisfatório, procurava-se aquele médico novamente. Caso contrário, procurava-se outro. Como se faz até hoje com outros profissionais como advogados, arquitetos, engenheiros, marceneiros, pedreiros, encanadores. Havia poucos médicos disponíveis e eram poucos os doentes que podiam ser tratados por médicos. A grande maioria se tratava com curandeiros e usava a medicina popular à base de remédios caseiros.

Os conceitos de saúde e doença mudaram, a cultura mudou e a relação médico-paciente também sofreu profundas mudanças. Nem sempre para melhor. Essas mudanças têm a ver com a interposição de agentes intermediários entre as duas partes, o avanço científico e tecnológico da medicina, a forma como os serviços de saúde são estruturados e as transformações de toda uma cultura dentro da qual esses atores estão imersos.

Determinados intermediários passaram a fazer parte dessa relação quando algumas instituições começaram a contratar serviços médicos e oferecê-los a seus associados. Ao mesmo tempo em que isso permitia o acesso de todos os seus membros aos serviços de saúde, por outro lado limitava a escolha entre uns poucos médicos e a disponibilidade a um número limitado de serviços. Esse tipo de serviço se expandiu, mudou de nome muitas vezes, até que chegamos ao serviço público de saúde que hoje conhecemos como SUS. Há também os serviços privados, convênios como Unimed, Amil, empresas de seguro-saúde e outras formas de medicina de grupo que servem de intermediários entre o paciente e o médico.

Apesar de trazer alguns benefícios para todos os envolvidos, a existência de intermediários entre o médico e o paciente produz interferências e distorções importantes nessa relação. Em alguns países, onde os serviços de saúde estão organizados de forma diferente e mais eficiente que no Brasil, vê-se que a relação médico-paciente ainda se mantém, de certo modo, preservada.  Entretanto podemos observar que, atualmente, e não apenas em nosso país, a relação médico-paciente está cada vez mais tênue, mais esgarçada, mais prejudicada. Não só os intermediários mas diversos fatores econômicos, sociais e culturais contribuem para esse quadro.

O que podemos dizer sobre a relação médico-paciente? Pode-se dizer que é muito mais que uma relação entre duas partes interessadas, um prestador e um tomador de serviços. É uma relação que envolve compromissos e deveres, uma relação baseada em confiança e responsabilidade, sinceridade e empatia. De um lado o paciente traz sua história, suas queixas, seus anseios, seu voto de confiança, ao procurar um médico de modo a encontrar alívio para seu sofrimento.  O doente espera ser acolhido, ouvido, examinado pelo profissional. Ele deseja que o médico se interesse em resolver seu caso e que, com esse objetivo, use sua capacidade técnica para mobilizar os recursos disponíveis de modo a investigar, diagnosticar e propor uma conduta. Ele conta com o empenho do médico em resolver seu problema ou, pelo menos, em minorar sua dor.

O profissional, por sua vez, deve se sentir honrado em receber o paciente, tornando-se responsável por conduzir seu caso até um desfecho satisfatório para ambos.  Para isso ele precisa de competência, comprometimento e empatia. Ele precisa considerar seu paciente como um universo que tem que ser explorado e investigado antes de se pensar em qualquer tratamento.

A relação médico-paciente é, antes de tudo, uma interação entre dois seres humanos que depende de comunicação, respeito e amor. Como qualquer relação humana, é complexa, é delicada, está sujeita a altos e baixos, sucessos e insucessos.

 

 

 

A amarga verdade sobre o açúcar

(Dra. Karen Câmara)

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Volto hoje a falar sobre o açúcar. Ah, esse nosso querido e doce açúcar. Não pensem vocês que eu não consumo açúcar.
Consumo sim e amo de paixão. Adoro doces, sobremesas, sorvetes. O açúcar é um dos meus maiores e mais arraigados vícios. A duras penas, já consegui ficar alguns períodos da minha vida sem consumir açúcar. Sempre com muito sacrifício.

Na minha época de faculdade – lá se vão mais de trinta anos – líamos o livro Sugar Blues (Sugar Blues: o Gosto Amargo do Açúcar, autor: William Dufty, editora: Ground) e comentávamos sobre os malefícios do açúcar. Lembro-me que um colega de classe me emprestou o livro e disse que havia feito uma constatação interessante. Abandonou o consumo de açúcar e verificou que, a partir de então, passou a não ter dificuldade em se manter acordado até tarde para estudar para as provas. Antes, recorria a grandes quantidades de café, adoçado com açúcar, e Coca-Cola, que também continha açúcar. Naquele tempo não existia Coca diet, só havia a original mesmo. O livro Sugar Blues expõe algumas verdades sobre o açúcar. Em geral, quem lê Sugar Blues fica tão estarrecido que deixa de consumir açúcar por algum tempo.

Lembro-me também de, logo depois de formada, ter começado a me aventurar em áreas do conhecimento oriental como Do-In, Shiatsu e Acupuntura. Em um curso de Do-In do Juracy Cançado, ele disse “O açúcar é uma droga erroneamente classificada como alimento”. Achei a frase muito inteligente e imaginei um diálogo fictício entre duas pessoas. Esse diálogo é presenciado por uma terceira pessoa, que desconhece o assunto.
“É um pó, é branco. São pequenos cristais.”
“Além disso, é fácil de se obter, é muito gostoso e dá barato”.
“O problema é que o barato passa logo e o consumidor passa a querer mais e mais. Portanto, esse pó vicia.”
“E esse vício faz com que a pessoa se alimente de forma cada vez menos saudável, além de trazer outras consequências nefastas para o organismo. Existem crianças que já estão viciadas.”
A terceira pessoa, então, cheia de curiosidade, pergunta: “Sobre que droga vocês estão falando? Cocaína, heroína, crack?”
“Não”, responde um deles, “Estamos falando sobre o açúcar!”
Vemos então que a frase do Juracy Cançado faz muito sentido.

A revista Nature, uma renomada publicação científica, trouxe um estudo sobre o açúcar intitulado A verdade tóxica sobre o açúcar (The toxic truth about sugar, publicado em 01/02/2012). Eis um resumo do artigo:

O consumo mundial de açúcar triplicou nos últimos 50 anos. Existe uma relação entre o consumo de açúcar e as doenças que constituem a síndrome metabólica: hipertensão arterial, diabetes ou resistência à insulina, taxas elevadas de triglicérides, gordura aumentada no fígado (esteatose hepática) e obesidade. Essas são doenças crônicas que diminuem a qualidade e a expectativa de vida, além de consumirem a maior parte dos recursos públicos destinados à saúde.
O açúcar pode levar à dependência. De forma semelhante ao tabaco e ao álcool, o açúcar age no cérebro humano de modo a estimular um consumo cada vez maior. O açúcar interfere com os hormônios grelina e leptina que regulam a fome e a saciedade. Interfere também com a dopamina, um neurotransmissor que atua no centro de gratificação do cérebro.
Por outro lado, o açúcar é barato, é gostoso e vende bem. Portanto está presente, em grandes quantidades, em alimentos e bebidas industrializadas e a indústria alimentícia tem pouco incentivo para mudar esse quadro.
A venda e distribuição do açúcar poderiam ser regulamentadas como a do tabaco e do álcool, outras duas drogas lícitas. Isso pode ser feito através de impostos sobre o produto, estabelecimento de idade mínima para compra e regulamentação de locais de venda.