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JUVENTUDE E MARGINALIDADE

(Claudia Pedrozo)

limites

Semana passada, vagando pela rede, assisti a um programa jornalístico, do tipo que eu não gosto muito, mas algumas vezes acho necessário para me manter conectada com o mundo real. Era um programa sobre o crescente número de menores envolvidos na criminalidade. O “jornalista apresentador” mostrava dois crimes bárbaros e idiotas ocorridos na capital paulista no início deste ano.

Deixando de lado os motivos torpes destes jovens, sua infância sofrida, regada a pobreza e quem sabe, revoltas, que podem influenciar, mas jamais determinar a entrada na criminalidade, o que mais me chamou atenção foi a postura das mães. Talvez não haja mais lágrimas para chorar e não haja mais nada a fazer do que se conformar e tentar entender o que deu errado na educação destes jovens que a marginalidade engole cada vez mais. Há no meio do bando assassinos maiores de idade, sempre há, não é mesmo? E as mães são amigas e não entendem o que aconteceu com os filhos, mesmo com a reincidente história de privação de liberdade por roubos, sequestros e tráfico na Casa do Menor ou antiga FEBEM. Uma das cenas seria cômica, se não fosse trágica. As mães de um “maior” e do “menor” contam ao repórter que os filhos juram que não fizeram nada, que nenhum deles cometeu o crime, mesmo com todas as provas que a polícia tem.

Pergunto-me, que amor cego é este? Talvez seja o amor da culpa! Nós mães somos as “rainhas da culpa”! Alguém deveria ter dito que ser mãe é padecer de culpas mil. Culpas tolas na maioria das vezes: por não estar sempre presente, por não poder dar a criança tudo que ela quer, por ter tido preguiça e deixado o filho ir à escola de ônibus, por ter que fazer hora extra, por ter que dizer não!

E nos culpamos por quê? Porque queremos ser diferentes dos nossos pais, porque em algum momento de revolta na juventude, quando fomos limitados ou não por eles, juramos a nós mesmos que seríamos pais diferentes, melhores, mais amigos e, de repente, eis que hoje nos pegamos fazendo exatamente como faziam nossos pais! Bem, salvo algumas situações bem específicas, não poderia ser diferente. Fomos criados por eles e somos os portadores da tradição familiar, está na nossa constituição psicológica, naquilo que Freud chamou de “ideal de ego”, que são nossas estruturas de valores e que regulam a ação do nosso superego e de “ego ideal”, que são as estruturas de nossa personalidade, ou nossas máscaras, a maneira como nos mostramos para o mundo. Estas estruturas do nosso “eu” são formadas em nosso processo educacional, no qual nossos pais presentes ou ausentes, nos ensinam, mesmo quando parece que não!

“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é…” as mães destes jovens cujas tendências arcaicas da personalidade ainda não foram educadas para a vida em sociedade também devem carregar seus fantasmas, provavelmente erraram tentando amar da forma que souberam ou puderam. E quem somos nós para jugá-las? Não vivemos a vida delas, não sofremos as dores delas. Podemos, empaticamente, lamentar e torcer para que a dor, que é processo de cura, as faça crescer. Faça a todos crescerem.

Quanto aos jovens que aceitaram a pulsão mais instintiva que há em nós e por ela regularam suas vidas, fico a pensar numa música antiga do Padre Zezinho: “um jovem custa muito pouco… um pouco de muito amor”!
Pais amem seus filhos, sejam racionais com suas culpas tolas, amar é também ser exigente, mas na medida certa. Seus filhos por mais que pareça o contrário,no futuro, lhe agradecerão e nossa sociedade também!