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POLITICAMENTE CORRETO

(R. C. Migliorini)

de

É politicamente correto pensar que uma pessoa sem uma deficiência séria, uma doença grave, ou alguma carência importante tem a obrigação de ser feliz. Afinal, pessoas assim, mesmo passando por tremendas dificuldades, podem ter muitas atividades, algumas vezes até mais que a maioria das outras que não tem esses problemas que nem sempre reclamam. Então, por que nos queixamos?

Esse discurso me parece de uma tremenda violência, pois obriga a pessoa a calar seus sentimentos e lhe causa culpa. Além disso, a faz se conformar com uma situação desconfortável, já que é “errado” procurar conforto maior na vida. Ela tem que ser feliz para sempre, como as princesas e os príncipes dos contos de fadas.

Existe também a situação inversa. Vou ilustrá-la com um exemplo pessoal. Eu me lembro de que logo após minha cirurgia eu peguei um ônibus, e não sei por qual razão, discuti com o cobrador. A reação do rapaz foi dizer pra eu não descontar a minha raiva, revolta, ou sei lá o quê nele.

Fosse realmente isso e ele estaria certo, pois a ninguém cabe servir de saco de pancadas de ninguém. Mas ele queria, ou melhor, exigia e esperava que eu, como deficiente, fosse sempre feliz e cordato. Para ele, eu teria que aturar injustiças sorrindo; aceitar ser vilipendiado com complacência e me calar ao ser tratado de forma grosseira.

Em resumo, a culpa silencia sentimentos legítimos. Ora, pessoas “frágeis”, doentes, acamadas, idosas, com bengala, deficiência mental, ou ainda em uma cadeira de rodas, não podem ser revoltadas, sentir raiva, nem se queixar. Elas devem ser naturalmente boas e nunca sentir dor, tristeza, frustração e, muito menos, reagir de acordo.

Porém, sofrimento não se compara.

Uma vez vi uma entrevista com uma atriz que teve um câncer de pele. O câncer foi diagnosticado logo, e uma pequena mancha foi retirada da pele da moça sem que nenhuma marca tenha ficado para contar a história. No entanto, ao falar do que lhe adviera, a atriz ficou extremamente emocionada. Sua reação me pareceu sem sentido e exagerada em um primeiro instante. Contudo, refletindo melhor sobre o assunto, conclui que o que não significava nada pra mim, pra ela tinha sido muito sério. Portanto, há que se respeitar a dor e sofrimento alheios bem como a própria, porque até onde eu sei, independentemente da “cara” de cada um, todos partilhamos de alma, coração e sentimentos.

Afinar é preciso

(R. C. Migliorini)

pedranocaminho

Quando eu recomecei a fazer um trabalho corporal diferente da fisioterapia, eu estava exausto e desanimado. Mas, com o tempo, eu dei uma relaxada e uma centrada. Ora, um dos fatores enfocado nele é a atitude da pessoa em relação a alguns fatores do meio-ambiente, como força de gravidade e espaço. Dependendo dessa atitude, ela se movimenta dessa ou daquela forma.

Com relação à gravidade, temos dois modos de agir: ceder ou resistir a essa força. Um exemplo do primeiro caso é uma criança dormindo cujo corpo largado fica muito pesado; do segundo, é a resistência que essa mesma criança faz para ficar em pé.

Em geral, as pessoas que procuram a fisioterapia tendem a não se mover ou a não serem capazes de tirar uma parte do corpo do chão ou de uma mesa. Por isso, da mesma forma que o menino, elas lutam contra a gravidade.

Contudo, sabemos que um esforço repetido durante tempo causa fadiga. Esse cansaço “passa” do físico para a mente e causa depressão, estresse, por exemplo. O meu caso, assim como o de pessoas que passam a vida lutando para não cair, tenham elas uma deficiência ou não, acaba sendo esse. Então, a tentativa do meu professor é me ensinar a ceder, a relaxar e a não lutar sempre contra a gravidade.

Isso, ao contrário do que parece em um primeiro instante, nos leva a equilibrar resistência e relaxamento e, consequentemente, a nos movimentar melhor, com mais agilidade e mais desembaraço. E porque aprendemos a resistir nos momentos necessários com as partes do corpo que precisam fazê-lo e a ceder quando podemos, nos cansamos menos. Ou seja, não gastamos mais energia do que é preciso. Assim, o movimento deixa de ser penoso e passa a ser prazeroso.
Pense na mão de um pianista ou no aparelho vocal de um cantor. Além de se afinar o instrumento, também é preciso afinar o corpo que o toca. Afinal, o instrumento é a extensão de um corpo. Da mesma forma, o som que ouvimos emana de um corpo.

Como uma boa interpretação requer modulações, é preciso que o interprete alcance notas altas e fortes e outras bem suaves. E assim como o instrumento, só um corpo afinado é capaz de nuances (a mão de um desenhista também precisa ser capaz dessas nuances). Por isso, eu acho que o cansaço e a exaustão têm remédio, e que todas as pessoas devem afinar o instrumento que possuem ou são, falando de uma forma mais holística. É o que eu penso como bailarino e como pessoa com deficiência.

Felicidade e Fedor

R. C. Migliorini

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O que escrever sobre o cotidiano se o meu é marcado por uma quase absoluta falta de movimento? Penso que essa reflexão é importante, porque para Rudolf Laban a doença é a falta de movimento – compartilhado comigo por Henrique Schuller, meu amigo, colega e terapeuta somático – e, o repouso total corresponde à morte.

Também há aí uma relação interessante que merece um exame cuidadoso. Sem muito esforço, percebemos a existência de um circulo vicioso em que a doença provoca uma diminuição do movimento e a redução deste, um agravamento da doença. Por isso, muitos médicos têm prescrito atividades ligadas ao movimento como a atividade física e a prática esportiva.

No meu caso, depois de muito tempo enfurnado em uma chácara mal servida pelo transporte público e situada em uma região cuja topografia bastante acidentada dificulta caminhadas ainda que curtas, eu tenho ido a São Paulo toda semana. Não é um deslocamento fácil, visto que eu não dirijo. Ida e volta exigem uma viagem de mais de seis horas e o uso de vários meios de transporte, isso porque moro somente a quarenta quilômetros de lá. Entretanto, quando eu chego aqui depois dessa peripécia, em vez de me lamentar por morar neste lugar, eu me sinto satisfeito com o movimento que fiz no dia. Assim, o cansaço cede lugar ao contentamento. Aliás, eu li em um comentário, não lembro aonde, que muitas das pessoas mais felizes do mundo chegam em casa fedendo no fim do dia. Ou seja, o movimento é de fato importante para o bem-estar mental.

Estou falando do movimento necessário para abandonar um estado de repouso. Sim, a inércia também pode refletir a acomodação a um estado bastante agradável. Será que os bebês gostariam de sair do útero materno, ou as borboletas de seus casulos? Porém, se não saírem no tempo certo, morrem e não cumprem a sua natureza.

As vantagens da inércia em que me encontro compensam cada vez menos as desvantagens de eu permanecer nela. Essa transição me lembra do esforço necessário a um foguete para sair da órbita que o retém em um corpo celeste. Porém, é esse “ânimo” que dá início ao movimento indispensável para ele sair dali. Assim, meu movimento é uma espécie de despertar. Talvez uma motivação pra eu começar a sair daqui e a iniciar um caminho de “cura”, não de uma cura apenas física, mas integral, ou mais precisamente, somática.

Cá pra nós: será que você também não precisa feder um pouco?