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APRENDER A SOFRER: É DE PEQUENINO QUE SE TORCE O PEPINO, PODE CRER!

(Claudia Pedrozo)

superproteção

Hoje estava “zanzando” pela internet e vi um texto que me chamou a atenção. Contava a história de um garoto norte americano, Halsey Parkerson, que estava sendo assediado moralmente na escola por outro adolescente; ou seja, Halsey estava sendo vítima de bullying. Outro estudante o chateava constantemente dizendo que ele não tinha amigos. Numa dessas situações Halsey estava almoçando com a tia quando foi assediado moralmente  pelo colega de escola. A tia percebeu a situação e para ajudar o sobrinho, organizou um evento no Facebook e no dia seguinte mais de cem pessoas compareceram à porta da escola, no horário da saída, para mostrar ao agressor que sua vitima tinha amigos. Fortalecido pela situação, Halsey conseguiu se impor ao seu agressor, que diante da multidão acabou se retratando.

Embora a história seja interessante e pudéssemos fazer inferências sobre ela, analisando o agredido, o agressor e a solução encontrada pela tia, o que me chamou mais a atenção foi o comentário postado por um leitor da reportagem.

O leitor escreveu que se o filho dele sofresse bullying, ele resolveria o problema tirando o garoto da escola, deixando-o por um ano afastado desse ambiente, só fazendo cursos prazerosos que aumentassem a auto estima do filho. Passado este tempo o colocaria para estudar em outra escola. Segundo ele isso resolveria o problema.

Fiquei preocupada! (Tomara que ele seja só um palpiteiro, aquele tipo de pessoa que entra numa discussão só para dar palpites, sem que tenha qualquer vivência relacionada ao problema exposto).

Será que a melhor solução seria a fuga?  Ou seria o enfrentamento?

Eu opto pela segunda alternativa. Fugir em qualquer idade nunca, jamais, é a solução! A fuga só nos faz recalcar os sentimentos, bons ou ruins e, mais tarde, estes fantasmas voltam para assombrar nossa vida, seja na forma de doenças emocionais, na forma de conversões, numa autoestima baixa, seja por transferências – projeções ou deslocamentos – que fazemos e que interferem diretamente em nossas escolhas.

Fugir não nos  fortalece, ao contrário nos torna reféns de medos, de inseguranças, de registros emocionais negativos que assombrarão nossas vidas, fazendo-nos sofrer. Se você parar para pensar vai lembrar-se de situações que você viveu e que foram dolorosas. Vai rever os sentimentos e desdobramentos que surgiram quando você enfrentou a situação e também vai atualizar os medos e sentimentos das situações nas quais você optou por fingir que não aconteciam. Tenho certeza que seu coração vai disparar!

Como pais não queremos ver nossos filhos sofrendo, mas com que direito e em nome de que amor, os  tornamos pessoas fracas, com baixa resistência às frustrações e problemas da vida? Queremos proteger a eles ou a nós mesmos? É amor ou  projeção? (lembrando que projeção é um mecanismo de defesa do ego onde atribuímos aos outros aquilo que é nosso e que, inconscientemente, não aceitamos em nós!)

Nossa tarefa enquanto pais é ajudar nossos filhos a se desenvolverem plenamente e isto inclui aprender a sofrer do tamanho certo. Nem mais, nem menos!

Você deve estar pensando: mas que coisa maluca é essa de sofrer do tamanho certo? É algo bem simples. Na Psicanálise aprendemos que a dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional. Não podemos impedir a doença de chegar, um ente querido de morrer, enfim não temos o poder de evitar as dores da vida, mas podemos escolher viver esta dor numa intensidade normal ou anormal. Isto é algo trabalhoso, mas possível quando equilibramos nossa emoção e nossa razão. Aprender a mesclar razão e emoção é um aprendizado que começa desde a mais tenra idade.

Por isso, a mensagem de hoje é básica: “Pais, ensinem seus filhos a sofrerem na medida certa! Na vida valorize o sofrimento do jeito certo. Não adianta dizer a um filho que sofre (por qualquer motivo que para nós é banal, mas para ele é imenso) que não é nada… para ele é sim! Deixe-o ficar triste, desanimado na medida certa, afinal, faz parte da vida viver a dor e este período de luto o ajudar a elaborar, enfrentar usando o ego que avalia racionalmente o sofrimento. Mas evite dar à dor uma dimensão superdimensionada.

Protejam sim, seus filhos, mas não o superprotejam. Afinal  aquilo que não nos mata, fortalece! E, por mais que queiramos, não somos eternos e nossos filhos não são nossos!

 

Afinar é preciso

(R. C. Migliorini)

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Quando eu recomecei a fazer um trabalho corporal diferente da fisioterapia, eu estava exausto e desanimado. Mas, com o tempo, eu dei uma relaxada e uma centrada. Ora, um dos fatores enfocado nele é a atitude da pessoa em relação a alguns fatores do meio-ambiente, como força de gravidade e espaço. Dependendo dessa atitude, ela se movimenta dessa ou daquela forma.

Com relação à gravidade, temos dois modos de agir: ceder ou resistir a essa força. Um exemplo do primeiro caso é uma criança dormindo cujo corpo largado fica muito pesado; do segundo, é a resistência que essa mesma criança faz para ficar em pé.

Em geral, as pessoas que procuram a fisioterapia tendem a não se mover ou a não serem capazes de tirar uma parte do corpo do chão ou de uma mesa. Por isso, da mesma forma que o menino, elas lutam contra a gravidade.

Contudo, sabemos que um esforço repetido durante tempo causa fadiga. Esse cansaço “passa” do físico para a mente e causa depressão, estresse, por exemplo. O meu caso, assim como o de pessoas que passam a vida lutando para não cair, tenham elas uma deficiência ou não, acaba sendo esse. Então, a tentativa do meu professor é me ensinar a ceder, a relaxar e a não lutar sempre contra a gravidade.

Isso, ao contrário do que parece em um primeiro instante, nos leva a equilibrar resistência e relaxamento e, consequentemente, a nos movimentar melhor, com mais agilidade e mais desembaraço. E porque aprendemos a resistir nos momentos necessários com as partes do corpo que precisam fazê-lo e a ceder quando podemos, nos cansamos menos. Ou seja, não gastamos mais energia do que é preciso. Assim, o movimento deixa de ser penoso e passa a ser prazeroso.
Pense na mão de um pianista ou no aparelho vocal de um cantor. Além de se afinar o instrumento, também é preciso afinar o corpo que o toca. Afinal, o instrumento é a extensão de um corpo. Da mesma forma, o som que ouvimos emana de um corpo.

Como uma boa interpretação requer modulações, é preciso que o interprete alcance notas altas e fortes e outras bem suaves. E assim como o instrumento, só um corpo afinado é capaz de nuances (a mão de um desenhista também precisa ser capaz dessas nuances). Por isso, eu acho que o cansaço e a exaustão têm remédio, e que todas as pessoas devem afinar o instrumento que possuem ou são, falando de uma forma mais holística. É o que eu penso como bailarino e como pessoa com deficiência.

A saúde do imperador-criança

(Dra. Karen Câmara)

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A China foi um império durante milhares de anos. O imperador era considerado a pessoa mais importante do país, inclusive com atributos que o aproximavam de uma divindade. A segurança do imperador era tão crucial que toda uma cidade foi construída em volta do seu palácio, aquilo que hoje se chama A Cidade Proibida em Beijing.

A educação e a saúde do imperador eram de suma importância. Se alguém viu o filme  O Último Imperador do diretor italiano Bernardo Bertolucci, deve se lembrar de uma cena em que o imperador ainda era criança e suas fezes aparecem dentro de um penico.  O médico olha, movimenta o cocô dentro do penico para ver sua consistência, cheira os excrementos e então diz:  “Menos carne”. Ele queria dizer que a alimentação do imperador-menino devia conter menos carne. O médico examinava as fezes do menino para poder ajustar corretamente sua dieta. As ordens do médico deviam ser seguidas pela cozinha do palácio. O imperador-criança tinha que comer o que fazia bem para sua saúde e não apenas o que lhe agradava. Sim, porque a preservação de sua saúde era assunto de Estado. Todo o império dependia dele e de suas decisões. Mas, veja bem, a saúde era preservada. Dizem que os médicos do imperador só recebiam seus honorários enquanto o imperador estivesse com boa saúde. Quando o imperador adoecia, os médicos deixavam de receber seu pagamento. Isso, é claro, era um incentivo para que os médicos se concentrassem muito mais em preservar a saúde do que em curar as doenças.

Educação e Saúde estão tão interligadas, tão entrelaçadas que é difícil dizer qual é mais importante. A meu ver, Educação vem primeiro. Através da Educação é possível melhorar, e muito, a Saúde. As crianças precisam das duas coisas desde o início e, para isso, as mães têm que ser educadas. São elas que cuidam das crianças nos seus primeiros anos de vida. São elas que formam as próximas gerações. Portanto, para criar as crianças, precisamos educar primeiro as mães.

Outro dia uma mãe me disse que a filha, de seis anos, tinha prisão de ventre crônica e muitos gases. Sofria de frequentes dores na barriga e não conseguia evacuar bem. Quando conseguia, eram fezes duras e ressecadas. Perguntei o que a criança comia e a mãe disse que era principalmente arroz, macarrão, pão e bolachas. “Só?”, perguntei eu. “Acontece que ela não gosta de verduras, legumes e frutas”, me respondeu a mãe.

É claro que a filha tinha prisão de ventre. Com essa dieta, seria difícil não ter prisão de ventre. O que está faltando aqui? Educar a mãe, que parece não saber como alimentar a criança. Ora, criança não deve comer apenas o que quer. A mãe tem que saber o que faz bem  à saúde da criança, assim como os médicos do imperador. A mãe deve ajustar a dieta às necessidades da criança. É claro que também tem que adaptá-la ao gosto da criança.  Mas essa mãe não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo e muito menos de como proceder. Então, por conta própria, dava este e aquele medicamento para a criança e nada resolvia. Não resolvia porque ela estava querendo eliminar os sintomas ao invés de lidar com as causas do problema. O problema era a dieta. Uma dieta pobre em fibras, rica em farinha branca, cheia de açúcar refinado, sem as fibras proporcionadas pelas frutas, verduras e legumes. Investiguei mais um pouco, vi que a criança tomava pouca água e bastante refrigerante. Como se não bastasse, fazia pouco exercício físico, ainda mais depois que passou a ter dores na barriga causadas pela prisão de ventre. Estava, então, completo o quadro para que desenvolvesse uma bela constipação intestinal: dieta pobre em fibras, ingesta inadequada de água e pouco exercício físico.

Como solucionar isso? Segundo a mãe, com medicamentos! Sim, por falta conhecimentos, ela dava remédios para a filha, crente que estava fazendo o melhor. Cada vez que ia à farmácia, o balconista lhe empurrava mais um medicamento e ela, toda esperançosa, dava para a criança. Como isso não resolvia o problema, ela achou que os medicamentos eram ineficazes. Foi aí que o caso chegou até mim.

Conversei com a mãe, expliquei que o problema da criança poderia ser resolvido sem uso de medicamentos. Bastaria fazer algumas mudanças na dieta e no estilo de vida. A mãe aceitou as sugestões, implementou as mudanças e depois me disse que a filha havia melhorado.

A mãe teve que ser educada para que a saúde da criança melhorasse.

Falando em Educação, terça-feira foi Dia do Professor. Parabéns a todos eles!

 

 

Rivalidade Fraterna: amor e ódio na relação entre irmãos

(Claudia Pedrozo)

irmaos

Ficar numa fila de banco é algo que todos detestamos, não é? Mas sempre se pode aprender um pouco mais sobre a vida quando ficamos lá, em pé ou sentados, de orelha na conversa alheia. Acreditem filas de banco são ótimos laboratórios!

Nesta semana fiquei a escutar, sem querer, mas já escutando, a conversa de duas comadres. A comadre “X” contava para a comadre “Y”sobre as dificuldades que seu filho e sua nora estão enfrentando com a rivalidade entre seus dois netos, uma menina de oito anos e um menino de quase sete. Segundo a vovó “X”, toda vez que o filho compra algo para o menino mais novo, obrigatoriamente tem que comprar para a menina mais velha. Ai dele se não comprar!!! A garota faz um dramalhão mexicano, tipo ninguém me ama, ninguém me quer… E, num ataque raivoso, briga e fala coisas horríveis para o irmão e para os pais. A família, segundo Dona “X”, está em pé de guerra. A briga entre os filhos está começando a afetar os pais, que sem saber como agir, acabam brigando entre si. Sentem-se culpados e impotentes diante da filha e acabam cedendo aos caprichos da garota, comprando-lhe algo , que ela geralmente não valoriza e que fica jogado num canto, logo após o recebimento.

Como sofrem – ou melhor como querem sofrer – as avós! Dona “X” está preocupadíssima, porque a neta está ficando insuportável e os pais não aceitam ajuda e conselhos da experiente senhora! E com tudo isso ela está vendo a neta se transformar numa pequena déspota, por culpa dos próprios pais.

Coçou minha língua para palpitar na conversa das duas senhorinhas, mas me contive. Pelo menos lá no banco. Afinal minha mãe sempre disse que ouvir conversa alheia é falta de educação! Mas como já flexibilizei meus valores, nesse quesito, resolvi falar sobre esta situação aqui.

A rivalidade entre irmãos é algo bíblico, natural e faz parte do desenvolvimento humano aprender a conviver com o outro. Quem tem irmãos sabe que aprendizado é este. Quem não tem irmãos, com certeza tem primos, o que dá quase no mesmo em termos de aprender a dividir na marra!

A família é o primeiro laboratório para essa aprendizagem. Quando nasce uma outra criança, o primogênito sente-se, naturalmente, ameaçado e preterido. Acredita, sente, imagina que perdeu o amor de seus pais, avós, tios, enfim de todos os adultos da família. Diante disso sentimentos ambivalentes – amor e ódio – por este “intruso” despertam. O resultado é que disputam, brigam até pelo ar que respiram, enlouquecendo os pais.
Como agir diante dessa situação?

Em primeiro lugar os pais devem deixar claro para o filho mais velho o quanto o amam, em palavras e em atitudes. A criança precisa sentir-se segura desse amor, precisa entender que não deixou de ser amada só porque o “outro” nasceu. É evidente que ela testará os pais e estes, muitas vezes sentindo-se culpados, porque naturalmente socorrem o caçula, acabam embolando todo meio de campo, quando entendem que o filho para sentir-se amado precisa ser comprado.

Crianças são mais espertas do que parecem e nos fazem de bobos sem que percebamos! Por isso devemos ter cuidado e prestar atenção no quanto estamos sendo manipulados e no quanto nos deixamos manipular, em nome de uma consciência “tranquila”.

Sugiro aos pais que sejam mais presentes, que dividam o tempo e as tarefas e se organizem para prover o mais novo, atendendo às suas necessidades e para passar um tempo junto com o filho mais velho. Um tempo de qualidade, onde não haja cobranças e comparações. Onde a criança, com o auxílio dos adultos, possa entender as necessidades do caçula e as dificuldades dos pais. Para isso diálogo é fundamental.

Todos nós queremos ser amados e valorizados… isto faz parte das nossas necessidades básicas. Ao receber de “presente” um irmãzinho, sem o devido preparo (já que muitas famílias fantasiam este momento como se fosse tudo lindo e perfeito, como se o caçula já nascesse grande e não desse trabalho e que pudesse ser o companheiro que o outro irmão deseja) a criança naturalmente vai “surtar”( afinal de uma hora para outra parece que ela ficou invisível, que todos só têm olhos para o caçula) e a única solução é fazer-se presente através da rivalidade com o outro.

Cabe aos pais serem os adultos nesta relação. Educar algumas vezes dói e sempre dá trabalho! Mas dar amor e segurança ao filho mais velho pode poupar uma série de dores de cabeça futuras. Para quem quiser se aprofundar no assunto, sugiro os livros:

“Entendo a rivalidade entre irmãos”, dos autores Joshua D. Sparrow e T. Berry Brazelton, da Editora Artmed (http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=1223955&sid=7351302311578499576232418)

“Rivalidade Fraterna – o Ódio e o Ciúme Entre Irmãos”, da autora Nise Britto, Editora Agora (http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=665043&sid=7351302311578499576232418)

“Irmãos ciumentos, irmãs egoístas – Dicas para enfrentar a rivalidade entre os irmãos”, do autor Ted O’Neal, Editora Paulus
(http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=5067400&sid=7351302311578499576232418)

Talvez Vovó “X” pudesse sutilmente dar um destes de presente ao filho…

Amor e segurança custam pouco. São mais baratos do que os subornos que os mais velhos muitas vezes cobram, como forma de tributo sádico aos pais culpados e algumas vezes mal resolvidos (porque alguns pais já viveram esta mesma situação, num outro tempo, e agora simplesmente atualizam seus recalques).
Amor e segurança custam pouco… um pouco de muita atenção. Pensem nisso.

Qual é o poder da crença?

(Dra. Karen Câmara)

birra

Na semana que passou, conversei com uma mãe que me disse o seguinte:
“Meu filho está doente porque quer comer um sorvete e eu não encontro para comprar.”

Ela contou que o filho, de dez anos de idade, havia visto a propaganda desse sorvete na televisão e isso teria despertado nele tamanha vontade de consumir a guloseima que ele, agora, apresentava sintomas de dor na barriga e febre.

Ora, do ponto de vista médico, sabemos que dor é um sintoma subjetivo, não há como comprovar ou mensurar, mas a febre é um sinal objetivo, fácil de medir, basta usar um termômetro. Sabe-se também, no meio médico, que as crianças tendem a referir dor na barriga quando estão em situação de desconforto ou de estresse. Geralmente essa dor na barriga não é acompanhada de diarreia ou vômitos, dois sinais objetivos. Entretanto, enjoo e inapetência podem, com frequência, compor o quadro. Quando se pedem exames complementares como ultrassonografia, endoscopia, exame de fezes, nada de anormal é constatado. Entre os fatores desencadeantes mais comuns estão a ausência repentina, inesperada ou prolongada de um dos pais, conflitos no ambiente familiar, problemas na escola ou no círculo de amigos da criança. Esse quadro evolui de forma benigna e costuma desaparecer quando a situação estressante deixa de existir.

Perguntei à mãe da criança sobre possíveis causas psicológicas e ela declarou com firmeza que nada havia de diferente ou possivelmente estressante na vida da criança que pudesse ser a causa da dor na barriga. Só podia ser o sorvete.

Perguntei sobre a febre, se ela havia aferido a febre com termômetro. Ela foi muito clara:
“Sim, medi a temperatura dele várias vezes e deu 37,5°C, 38°C e até 38,5°C. A febre vai e volta. Às vezes ela só passa se eu dou remédio”.

Argumento que uma febre é sempre um sinal importante e deve ser investigado. Recomendo que leve seu filho a um serviço médico para ser avaliado. Ela não se deixa convencer, diz que o filho já esteve em consulta recentemente, exames foram pedidos e estão normais. A criança está perfeitamente sadia. O problema é o sorvete.

De sua parte, ela explica que vivem no sítio, são pessoas simples, de poucos recursos mas “nunca faltou o de comer”. Diz, com orgulho, que nunca deixaram a criança “passar vontade”. Parece querer dizer: “Somos bons pais, bons provedores, somos responsáveis, estamos conscientes de nossos deveres para com nossos filhos!”

“Mas agora, dessa vez,” ela acrescenta, “não foi possível fazer a vontade do menino. Já fui à cidade mais perto, procurei em todas as padarias e não consegui encontrar o sorvete para comprar. Então, ele ficou doente.”

Tento arrazoar de outra forma, dizendo que a criança tem dez anos e já possui entendimento suficiente para lidar com situações de frustração. Ela concorda, diz que o filho é uma criança calma, inteligente, sabe perfeitamente aceitar que algumas coisas não são possíveis mas isso em nada resolve o problema. O fato é que ele adoeceu porque está passando vontade de comer um sorvete que ela não consegue encontrar para comprar. E tem mais, toda vez que o filho assiste à propaganda, o desejo volta e ele apresenta novamente os mesmos sintomas.

A conversa terminou sem que se chegasse a uma solução. De um lado, a crença da mãe e, por conseguinte, da criança, que “passar vontade de comer” alguma coisa leva ao adoecimento. De outro lado, o poder de uma mídia televisiva que invade todos os lares e todas as cabeças, despertando vontades irresistíveis.

Uma amiga mais tarde me contou que a propaganda do sorvete é muito bem feita e está ligada a um super-herói que tem forte apelo emocional nas crianças.

Dois dias depois, soube que uma colega médica atendeu um caso muito semelhante. Desta feita, a criança tinha dois anos. Fiquei estupefata.

O que pensar disso? Até que ponto nossas crenças produzem sintomas físicos? Até que ponto adoecemos, física e mentalmente, porque nossos desejos não são satisfeitos?

Fetichismo…

(Paulo Jacob)

fetiche

Falar sobre o fetichismo é algo intrigante…

O fetichismo inicialmente foi citado por Freud como o desejo do filho ver na mãe o pênis que não existe, por um motivo óbvio, pois ela tem uma vagina. Esse “vazio” existente na mãe (a falta do pênis), pode criar na criança a necessidade dela encontrar algo para substituir essa falta, como pro exemplo uma outra parte do corpo da mãe (pés, mãos, nádegas, etc…). É claro que isso é apenas um breve resumo do que Freud falou sobre o fetichismo.

Essa interpretação pode render uma grande dissertação, alguns concordam e outros contestam tal definição. Aqui eu vou passar uma outra visão sobre o fetichismo, que pode até ser decorrente dessa interpretação freudiana, vocês irão entender.

Fetiche, é ter um tesão grande pelos pés femininos, seios, nádegas, boca, etc… Mas também pode ser de roupas, lingeries, etc. E também pode acontecer das mulheres terem fetiches em relação aos homens. O fato de existirem mais homens do que mulheres “fetichistas”, pode ser pelo simples motivo de que é mais fácil as mães ficarem nuas na frente dos seus filhos, do que os pais agirem com essa liberdade na frente das suas filhas. Então, fica mais fácil para os homens terem recalcado o desejo que tiveram pelas suas mães, do que as meninas pelos pais, pois poucas tiveram essa experiência quando criança.

Mas porque temos esses fetiches? Então, vou criar um exemplo, pensando que um dia na vida de uma menino, ele tenha visto várias vezes sua mãe nua, saindo do banho ou trocando de roupa. Certamente, esse menino teve um desejo inconsciente ao ver sua mãe nua (totalmente ligado ao complexo de Édipo…), e é bem possível que essa experiência (boa por sinal para ele) tenha sido gravada em seu inconsciente. Vamos incrementar um pouco mais essa experiência, dizendo por exemplo que na grande maioria das vezes esse menino presenciava sua mãe se vestindo (calcinha, soutien…), ou seja, esse garoto vai gravar o seguinte pensamento “roupas íntimas = coisa boa/prazer”. Isso também poderia acontecer com os seios, pés, pernas, etc.

Ao longo de sua vida, quando esse menino crescer, possivelmente ele dará um valor além do comum à esses objetos, ou seja, lingerie em geral. Pode parecer simples demais tal raciocínio, mas vários homens fetichistas, quando perguntados sobre tal “dependência”, sempre acabavam se lembrando de experiências desse tipo na infância. Mas muitos também poderão não se lembrar, devido ao processo de defesa deles, em não poderem vincular a figura materna, com prazer sexual. Isso varia de pessoa para pessoa, de acordo com o nível da sua censura interna. O voyeurismo também tem uma ligação com esse tipo de raciocínio, que consiste em ter prazer em apenas observar uma pessoa nua na sua frente, em a necessidade de tocá-la.

Outro fato que poderá desencadear com que uma pessoa se torne fetichista, é uma grande frustração em uma experiência sexual, fazendo com que a pessoa regrida a uma fase da vida, em que ela teve uma boa experiência, sem nenhum tipo de ameaça, ou seja, o tempo que em que ele via sua mãe nua na frente, se vestindo.

Então, se existe uma ligação entre a interpretação de Freud para o fetichismo, ou seja, a substituição da ausência do pênis na mãe para um outro objeto, com o que descrevi acima, cabe a cada um decidir. O que vale é que de uma maneira ou outra, existe a necessidade por parte dos fetichistas de terem um objeto escolhido por eles, para que eles tenham prazer.

É errado ter fetiche? Claro que não! Se alguém tem fetiche por partes do corpo, ou por um tipo de roupa, que continue tendo. Se isso apimenta a relação, não há problema nenhum nisso. O “preocupante” é quando uma pessoa só consegue ter prazer sexual, se ele ou ela obrigatoriamente tiverem contato unicamente com o objeto desejado, esquecendo de olhar para a sua parceira ou parceiro como um todo.

O fetiche pode ser um complemento, e não o objetivo, o único foco na relação sexual.

Até mais!

O doce afago de cada dia

(Rogério C. Migliorini)

abraco

Ontem eu vi a seguinte cena: um garoto pequeno, a irmã um pouco mais velha e a mãe descendo uma ladeira. O menino e a irmã resolveram apostar corrida aproveitando o declive. A mãe, praticamente quieta, só falou pra eles terem cuidado.

No fim de quase um quarteirão, acidentalmente o menino tropeçou no calcanhar da irmã que ia à frente. Para evitar a queda, tentou manter o equilíbrio, mas caiu assim mesmo. No entanto, o tombo não foi feio, já que a ladeira não era tão íngreme. Também não ocorreu o pior porque parte da sua tentativa meio desesperada e meio instintiva pra evitar a queda deu certo. Contudo, ele se ralou um pouco, e começou a chorar.

A mãe o acudiu, porém estava serena, visto que o estrago fora pequeno. Com a cabeça do garoto no colo, valorizou a tentativa dele para não cair. Disse ao filho que sua intenção tinha dado resultado e que o tombo poderia ter sido bem pior. Por fim, disse que estava orgulhosa da esperteza dele e que ele já era um homenzinho.

Pouco a pouco o menino se tranquilizou e parou de chorar.

A solidariedade tranquila da mãe ante o inesperado (para o menino, pelo menos), o ajudou a se acalmar, uma vez que ele estava mais abalado internamente do que fisicamente machucado. Em vez de valorizar a queda, a mãe deu valor à tentativa do filho para não cair e chamou a sua atenção para isso. Em nenhum momento menosprezou uma dor invisível ou uma solicitação infantil, e nem se incomodou com a dependência afetiva do filho; ao contrário, aproveitou toda a situação para reforçar os laços de afeto com a criança e, ao mesmo tempo, valorizar e incentivar com suas atitudes a necessidade de independência do filho.

Com tudo isso, eu não pude deixar de me lembrar do cão de Pavlov, dos ratos de Skinner, da foca que recebe um peixe após equilibrar uma bola no nariz ou ainda do cachorro que ganha petiscos quando não faz xixi no tapete e que leva bronca ao subir no sofá.

Acho que a maioria dos nossos comportamentos não pode ser modelada com simples estímulos de punição e recompensa. Mas no meio de toda uma gama de respostas da mãe, houve, sim, uma recompensa, um reconhecimento. E a importância disso para o bem-estar emocional e educacional do filho foi imensa. Daí me ocorreu que algumas vezes, tudo que desejamos é um afago de mãe, ou meramente do nosso torrãozinho de açúcar.