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Realmente conhecemos nossos filhos?

(Claudia Pedrozo)

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No meu “ganha pão” muitas vezes ouço histórias que me fazem refletir sobre minha relação com meus filhos e vezes sem fim faço a mim mesma a pergunta “e se fosse comigo?”.

Nesta semana ouvi o relato de uma Professora Coordenadora, afirmando que em dez anos de carreira, nunca tinha vivido uma situação parecida com a que vivenciara na noite anterior.

Período noturno, alunos de Ensino Médio. Lá estava a Coordenadora no corredor, observando o retorno à aula após o período de intervalo, quando foi abordada por dois alunos, um rapazinho e sua amiga. Conta ela, sem nenhuma nota de preconceito na voz, que ficou em dúvida se eram duas meninas ou um casal e que a dúvida persistiu até o momento em que perguntou o nome dos alunos. Resposta dada era um casal, um rapazinho e uma mocinha. A responsável pela abordagem foi a garota. Ela disse à coordenadora que o amigo tinha um problema e precisava de ajuda, mas que estava com vergonha de falar. Então esta profissional solícita, acalmou os ânimos, acolheu o garoto, convidou-o à sua sala e esperou que o mesmo se abrisse com ela.

Passado o mal estar inicial o garoto disse que estava há dois dias com um sangramento anal e que não sabia o que fazer. A Coordenadora mobilizou nela toda empatia necessária ao momento, visto que, não obstante ser hoje comum jovens de 15 anos terem experiências homossexuais abertamente, elas ainda nos assustam, ainda nos causam algum mal estar, talvez porque numa transferência pensemos em todos os preconceitos e perigos a que estes jovens estão sujeitos.

Recobrado o equilíbrio a coordenadora pediu a ele que relatasse o que ocorrera que ocasionara o sangramento. O aluno contou com riqueza de detalhes. Ele e seu parceiro, uma pessoa mais velha, haviam tido relações anais e depois disso o sangramento começou. Não fora a primeira relação, não fora violenta, Aparentemente nada que justificasse o sangramento. Com o consentimento do aluno, a professora de Biologia, que tem um bom relacionamento com os alunos foi chamada a orientar. Ao perguntar se eles haviam tomado precauções, como o uso da camisinha, o rapaz respondeu que não, que eles são fiéis um ao outro e que dispensam o uso desta proteção. Ao perguntar se ele tinha certeza que o companheiro era “limpo”, ingenuamente ele disso que sim, que o mesmo toma banho sempre. Refeita a pergunta quanto a ter certeza que o companheiro não possui nenhuma doença sexualmente transmissível, se já tivera outros parceiros antes dele, o rapaz não soube responder. A Equipe Escolar então encaminhou o menino para o Posto de Saúde com um relatório à Assistente Social.

Diante da gravidade dos fatos, a escola disse ao aluno que precisaria conversar com sua mãe e contar o que estava acontecendo. O aluno aceitou, mesmo porque seria a primeira vez que a mãe ficaria sabendo de sua vida sexual e de sua relação com outro homem.

A mãe atendeu na hora o chamado da escola e ficou muito surpresa com o que ouviu. Ela, apesar de ver que o filho “era um pouco mais delicado que o normal” (palavras da mãe), nunca pensou que ele fosse capaz de fazer as coisas relatadas. A mãe foi orientada a acompanhar de perto a ida ao médico e os resultados do exame.

Não houve gritos, nem choros, nem nenhuma reação emocional desmedida. Talvez, segundo a Coordenadora a mãe até já soubesse, mas não quisesse saber.

Depois desse relato encontrei a Professora Coordenadora e ele me disse que o aluno está se tratando de uma DST – Doença Sexualmente Transmissível e agora faz parte de um grupo de orientação do Posto de Saúde para sexualidade segura.

Fiquei pensando na onipotência da juventude. Esta é uma característica do jovem. Nada de ruim vai acontecer a ele, por isso os jovens se lançam a aventuras onde o bom senso muitas vezes fica esquecido. Muitas vezes a necessidade de aceitação os faz aceitar as regras do jogo, mesmo que estas coloquem sua vida em risco. Além disso, tem também as idealizações que são aprendidas socialmente, embora seja “cafona” (termo tirado do fundo do baú!) todos nós introjetamos o sonho de viver um grande e idealizado amor!

Depois pensei nesta mãe. Será que algum dia ele olhou de verdade para este filho? Não conheço o rapaz, mas para a Professora Coordenadora ficar em dúvida sobre o sexo dele, é porque os traços físicos são mais femininos que masculinos… Aonde ele vai quando sai à noite? Quem são seus amigos? Onde moram? Como ele volta para casa? Ele tem horário para chegar?

Ser pai é uma tarefa trabalhosa! Encontrar o equilíbrio é algo que devemos exercitar sempre em nós mesmos, para tudo na vida, mas em especial para a tarefa de educar outro ser humano.

Ouvindo esta história parei para pensar: realmente conheço meus filhos? Olho para eles e os vejo como realmente são? Ou apenas vejo o que quero, o que desejo que eles sejam?

E você? Realmente conhece seu filho? Pense nisso.

Qual é o poder da crença?

(Dra. Karen Câmara)

birra

Na semana que passou, conversei com uma mãe que me disse o seguinte:
“Meu filho está doente porque quer comer um sorvete e eu não encontro para comprar.”

Ela contou que o filho, de dez anos de idade, havia visto a propaganda desse sorvete na televisão e isso teria despertado nele tamanha vontade de consumir a guloseima que ele, agora, apresentava sintomas de dor na barriga e febre.

Ora, do ponto de vista médico, sabemos que dor é um sintoma subjetivo, não há como comprovar ou mensurar, mas a febre é um sinal objetivo, fácil de medir, basta usar um termômetro. Sabe-se também, no meio médico, que as crianças tendem a referir dor na barriga quando estão em situação de desconforto ou de estresse. Geralmente essa dor na barriga não é acompanhada de diarreia ou vômitos, dois sinais objetivos. Entretanto, enjoo e inapetência podem, com frequência, compor o quadro. Quando se pedem exames complementares como ultrassonografia, endoscopia, exame de fezes, nada de anormal é constatado. Entre os fatores desencadeantes mais comuns estão a ausência repentina, inesperada ou prolongada de um dos pais, conflitos no ambiente familiar, problemas na escola ou no círculo de amigos da criança. Esse quadro evolui de forma benigna e costuma desaparecer quando a situação estressante deixa de existir.

Perguntei à mãe da criança sobre possíveis causas psicológicas e ela declarou com firmeza que nada havia de diferente ou possivelmente estressante na vida da criança que pudesse ser a causa da dor na barriga. Só podia ser o sorvete.

Perguntei sobre a febre, se ela havia aferido a febre com termômetro. Ela foi muito clara:
“Sim, medi a temperatura dele várias vezes e deu 37,5°C, 38°C e até 38,5°C. A febre vai e volta. Às vezes ela só passa se eu dou remédio”.

Argumento que uma febre é sempre um sinal importante e deve ser investigado. Recomendo que leve seu filho a um serviço médico para ser avaliado. Ela não se deixa convencer, diz que o filho já esteve em consulta recentemente, exames foram pedidos e estão normais. A criança está perfeitamente sadia. O problema é o sorvete.

De sua parte, ela explica que vivem no sítio, são pessoas simples, de poucos recursos mas “nunca faltou o de comer”. Diz, com orgulho, que nunca deixaram a criança “passar vontade”. Parece querer dizer: “Somos bons pais, bons provedores, somos responsáveis, estamos conscientes de nossos deveres para com nossos filhos!”

“Mas agora, dessa vez,” ela acrescenta, “não foi possível fazer a vontade do menino. Já fui à cidade mais perto, procurei em todas as padarias e não consegui encontrar o sorvete para comprar. Então, ele ficou doente.”

Tento arrazoar de outra forma, dizendo que a criança tem dez anos e já possui entendimento suficiente para lidar com situações de frustração. Ela concorda, diz que o filho é uma criança calma, inteligente, sabe perfeitamente aceitar que algumas coisas não são possíveis mas isso em nada resolve o problema. O fato é que ele adoeceu porque está passando vontade de comer um sorvete que ela não consegue encontrar para comprar. E tem mais, toda vez que o filho assiste à propaganda, o desejo volta e ele apresenta novamente os mesmos sintomas.

A conversa terminou sem que se chegasse a uma solução. De um lado, a crença da mãe e, por conseguinte, da criança, que “passar vontade de comer” alguma coisa leva ao adoecimento. De outro lado, o poder de uma mídia televisiva que invade todos os lares e todas as cabeças, despertando vontades irresistíveis.

Uma amiga mais tarde me contou que a propaganda do sorvete é muito bem feita e está ligada a um super-herói que tem forte apelo emocional nas crianças.

Dois dias depois, soube que uma colega médica atendeu um caso muito semelhante. Desta feita, a criança tinha dois anos. Fiquei estupefata.

O que pensar disso? Até que ponto nossas crenças produzem sintomas físicos? Até que ponto adoecemos, física e mentalmente, porque nossos desejos não são satisfeitos?

O doce afago de cada dia

(Rogério C. Migliorini)

abraco

Ontem eu vi a seguinte cena: um garoto pequeno, a irmã um pouco mais velha e a mãe descendo uma ladeira. O menino e a irmã resolveram apostar corrida aproveitando o declive. A mãe, praticamente quieta, só falou pra eles terem cuidado.

No fim de quase um quarteirão, acidentalmente o menino tropeçou no calcanhar da irmã que ia à frente. Para evitar a queda, tentou manter o equilíbrio, mas caiu assim mesmo. No entanto, o tombo não foi feio, já que a ladeira não era tão íngreme. Também não ocorreu o pior porque parte da sua tentativa meio desesperada e meio instintiva pra evitar a queda deu certo. Contudo, ele se ralou um pouco, e começou a chorar.

A mãe o acudiu, porém estava serena, visto que o estrago fora pequeno. Com a cabeça do garoto no colo, valorizou a tentativa dele para não cair. Disse ao filho que sua intenção tinha dado resultado e que o tombo poderia ter sido bem pior. Por fim, disse que estava orgulhosa da esperteza dele e que ele já era um homenzinho.

Pouco a pouco o menino se tranquilizou e parou de chorar.

A solidariedade tranquila da mãe ante o inesperado (para o menino, pelo menos), o ajudou a se acalmar, uma vez que ele estava mais abalado internamente do que fisicamente machucado. Em vez de valorizar a queda, a mãe deu valor à tentativa do filho para não cair e chamou a sua atenção para isso. Em nenhum momento menosprezou uma dor invisível ou uma solicitação infantil, e nem se incomodou com a dependência afetiva do filho; ao contrário, aproveitou toda a situação para reforçar os laços de afeto com a criança e, ao mesmo tempo, valorizar e incentivar com suas atitudes a necessidade de independência do filho.

Com tudo isso, eu não pude deixar de me lembrar do cão de Pavlov, dos ratos de Skinner, da foca que recebe um peixe após equilibrar uma bola no nariz ou ainda do cachorro que ganha petiscos quando não faz xixi no tapete e que leva bronca ao subir no sofá.

Acho que a maioria dos nossos comportamentos não pode ser modelada com simples estímulos de punição e recompensa. Mas no meio de toda uma gama de respostas da mãe, houve, sim, uma recompensa, um reconhecimento. E a importância disso para o bem-estar emocional e educacional do filho foi imensa. Daí me ocorreu que algumas vezes, tudo que desejamos é um afago de mãe, ou meramente do nosso torrãozinho de açúcar.