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Maturidade: a minha mais nova amiga

(R. C. Migliorini)

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No seu livro “Passagens: as crises previsíveis da vida adulta”, Gail Sheehy afirma que por volta dos quarenta anos, é comum o indivíduo reavaliar sua vida em meio a fases de grande depressão que somem com uma espécie de renascimento. Isso, talvez se dê, por causa de uma tomada de consciência de que não somos eternos e de que metade da nossa vida já se passou.

Sheehy lista celebridades que criaram obras importantes na maturidade. Faço o mesmo com exemplos como o de Cora Coralina, que publicou seu primeiro livro aos setenta e cinco anos, de José Saramago cujo primeiro trabalho importante só foi escrito depois dos quarenta e até da atriz Bibi Ferreira que aos noventa anos estreou mais uma peça em sua longa e bem-sucedida carreira.

Voltando a Cora, a poeta relata que ao completar cinquenta anos passou por uma profunda transformação interior, a qual definiria mais tarde como “a perda do medo”. A minha perda de medo está ocorrendo agora, pois com essa mesma idade, contrariamente ao que eu imaginava, eu estou voltando a viver do meu corpo e da minha arte.
Ora, em tempos recentes e de modo quase casual, eu comecei a posar como modelo vivo. Ainda que isso pareça uma negação da realidade, me reaproxima do corpo, da arte, da dança, do palco e de um público, aqui composto por outros artistas.

Entretanto, quando eu estava em forma e era jovem eu não sei se teria coragem de posar nu. Agora que tenho cinquenta anos e uma deficiência física, a coragem apareceu.

O exemplo de um dos ícones do meio: uma modelo de setenta anos, que posa á cinquenta, contribui para a consciência de que nesta área, nada apelativa, há lugar para modelos jovens e velhos, gordos e magros, altos e baixos, ao contrário do que acontece no mundo da moda, sobretudo no das passarelas.

Neste universo, um modelo sarado, belo e alto, falha se não conseguir estimular os desenhistas ou se for incapaz de dialogar com eles de modo não verbal. Este universo também requer uma aceitação integral do corpo como ele é. Nele não há espaço para rejeitar gordurinhas a mais, ombros curvos, membros sexuais pequenos, nádegas avantajadas ou pouca estatura, assim como, um jeito claudicante de andar, limitações físicas e até uma bengala.

No entanto, mesmo reconhecendo que faço bem o meu trabalho, fico surpreso ao ser chamado para fazer outros. Agradeço à minha mais nova amiga: a maturidade.