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Adolescência e Mentira: histórias de pescador ou falta de caráter?

(Claudia Pedrozo)

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Esta semana estava aguardando (infinitamente!) para ser atendida numa consulta e  matava o tempo folheando uma revista feminina quando deparei-me com uma mãe que pedia socorro a um especialista, relatando que tem uma filha pré-adolescente que mente demais, segundo a mãe, a garota é compulsiva, mente por qualquer coisa. A mãe relatava já ter passado por vários estágios da raiva à piedade, mas a situação só se agravava. Foi dura, bateu, gelou, castigou, privou de tudo que é prazeroso, fez chantagem emocional, elogiou, premiou e… nada, a menina continua mentindo, e mesmo quando é “desmascarada”, age como se tivesse sendo vítima da maior injustiça do mundo, dizendo que faz o que faz para ajudar os outros, para não magoar ninguém e que sofre com as atitudes injustas dos pais ou age como se nada tivesse acontecido, embora fique num monólogo apontando justificativas e injustiças. Num determinado momento da queixa a mãe diz que a compara com o irmão  mais novo que não mente. Os pais estão com medo dela se tornar uma criança de má índole, estão arrasados, não encontram uma solução,não sabem o que fazer. A mãe reforça que a filha é maravilhosa e o que a estraga é a mania de mentir. Sente que a filha precisa de ajuda, conta que a garota é muito fechada e que por mais que tente, esta não se abre com ela. Termina afirmando que cuidar de filhos não é fácil!

Coincidentemente (Jung não acredita em coincidências, mas sim em sincronicidade, tipo Lei da Atração!) no mesmo dia uma colega me falou sobre o mesmo problema com o filho e sugeriu que eu escrevesse algo sobre o assunto. Bem, vou tentar!

Muitas são as questões que a mãe da revista traz. Podíamos fazer a psicanálise selvagem analisando uma série de coisas, mas vamos nos ater à questão da mentira na adolescência.

Aprendemos desde pequenos que mentir é errado.  Informação dada não significa valor introjetado.  Deste modo ouvir que mentir é errado e não mentir de modo algum ao longo da vida são ações distintas. Não é porque ouvimos que fazemos.

Para muitos pais perceber que o filho mente compulsivamente pode despertar um sentimento de ter fracassado na educação de valores que a família tentou passar para ele. Nem sempre isso é uma verdade. Nem tampouco é sempre mentira! Há casos e casos e cada um é um!

Nos educamos pelos exemplos, nossos valores são construídos com base nos valores e atitudes de nossa família e nos da sociedade em que vivemos.

A mentira está presente em nossas vidas. Muitas vezes a achamos “necessária”, logo perdoada, muitas vezes a condenamos, logo reprimimos.

Na sociedade moderna a mentira é tão frequente que já se banalizou. Encontramos mentirinhas e mentimos muitas vezes ao dia, em diferentes situações sociais. Fazemos um elogio mentiroso, damos desculpas esfarrapadas ou mentimos descaradamente por mil razões: medo das consequências negativas, insegurança, pressão social, ganhos ou patologicamente.

Quando crianças, mentimos para não sermos punidos.  Na infância, até os cinco, seis anos a criança não consegue distinguir claramente a realidade da fantasia, a partir dos sete anos aproximadamente, ela já sabe o que é mentira e a usa em “beneficio próprio”.

Na adolescência mentimos para sermos aceitos e amados, para atender ao desejo de fazer o que queremos e a realidade de atender ao que esperam de nós. Mentir é estratégia comum entre os adolescentes para conseguir fazer coisas que sabem que não serão aprovadas pelos pais.

Crianças/adolescentes com superego rígido (censura) podem se tornar mentirosos compulsivos ao descobrirem que a mentira sacia a curiosidade dos pais ou os ajuda a serem aceitos e valorizados pelas pessoas, em especial por outras crianças/adolescentes

Na vida adulta mentir é uma forma de se preservar, de não ter que assumir responsabilidades por algo que não deu certo. Está presente em muitos mecanismos de defesa que usamos cotidianamente: na atuação (quando nos passamos por algo que não somos, mas que os outros (ou nós mesmos) gostariam que fossemos, na idealização (quando nos mostramos de forma idealizada, que não corresponde com a realidade), na intelectualização (quando usamos a inteligência para criar argumentos que justifiquem condutas que sabemos não serem condizentes com nossos valores, mas que lá no fundinho desejamos), na racionalização (quando fazemos “caquinha” e usamos argumentos lógicos para explicar o que fizemos, nos isentando da responsabilidade da escolha), por exemplo.Ao mentir podemos ser “anjo” – mentir para agradar  – ou “demo” mentir para poder receber algo em troca.

A mentira está presente em pessoas normais ou pessoas com problemas sérios como Neuroses e Psicoses. Nos estados neuróticos, a mentira surge devido a incapacidade de  enfrentarmos  desejos recalcados e que se encontram no  inconsciente ou por problemas de baixa autoestima Nos estados limite, chamados Borderline,  a mentira revela a  falta de barreiras externas que regulem o comportamento do indivíduo. Esta situação decorre geralmente de uma educação feitas por pais muito repressivos ou demasiadamente permissivos. Na Psicose a mentira está presente nos delírios. O psicótico acredita piamente nos delírios por ele criados para fugir da realidade, do sofrimento que a realidade lhe impõe. O hábito de mentir compulsivamente pode ser também uma patologia conhecida por Mitomania. Neste caso a mentira é como um vício, o mentiroso é dependente emocional da mentira, ele é incapaz de se controlar, quando vê a mentira já foi contada e para mantê-la mente mais e mais. Esta patologia causa muito sofrimento e a terapia é uma saída para enfrentar o problema.

Dentro de padrões de comportamento não patológicos a mentira pode ser considerada uma falha de caráter, entendendo  caráter como um conjunto de características e traços relativos à maneira de agir e de reagir de um indivíduo ou de um grupo”.

Se seu filho mente descaradamente e esta mentira prejudica a ele ou a outras pessoas você deve ficar atento(a). Mentir para sair com o namorado ou fazer um passeio em um lugar perigoso é diferente de roubar dinheiro da sua carteira. Uma coisa é testar limites, outra é transgredir lesando o outro. Ao perceber esta situação os pais devem chamar o jovem à realidade, devem passar a acompanhá-lo bem de perto, se fazendo presentes de forma educadora e carinhosa, intervindo e orientando sempre. Mas cuidado com a manipulações e dissimulações, por isso confie, desconfiando! Mentir faz parte da adolescência, caracterizam uma necessidade de distanciamento e diferenciação na busca do encontro consigo mesmo.

Diante das mentirinhas recorrentes, avalie as relações interpessoais que há no seu âmbito familiar. Estabeleça o diálogo, mostrando ao adolescente que a mentira pode trazer consequências negativas, mas cuidado com o monólogo, pratica comum dos pais que dissertam sobre algo com seus filhos. Observe se o que você ensina está coerente com o que você pratica. Você tem pedido a cumplicidade de seu filho para “pequenas mentirinhas”? Tem valorizado as espertezas de seu filho no hábito de inventar “mentirinhas brandas”? Você é um(a) educador(a) observador(a) ou um(a) intrometido(a), que suspeita e invade a privacidade do adolescente, minando o clima de confiança entre vocês?

Ai, meu Deus… Como identificar uma mentira?

Somos programados para dizer a verdade. Quando mentimos nosso corpo nos delata! Especialistas afirmam que ao mentir emitimos sinais não verbais da mentira que podem ser captados por um interlocutor mais atento. Os sinais mais comuns em crianças, adolescentes e adultos pode estar no choro sem lágrimas ou que para de repente ao ser atendido, na colocação da mão na boca, no morder ou coçar a região labial, no desvio dos olhos, na dilatação das pupilas, nas pausas longas e frequentes no discurso, marcado por repetir a pergunta antes de responder, no sorriso curto, nervoso e inexpressivo, que some com rapidez, na falta de gesticulação ou nos gestos dissociados das palavras.

Há ainda uma outra faculdade que não deve ser esquecida nunca pelos pais: a intuição.

Ouça a sua sempre. E investigue e dialogue sempre.

Voltando à mãe da revista, ela está certa. Educar é trabalhoso! Requer orientação, limites e verdade. Acima de tudo seja coerente. Como dizem por aí, “palavras movem, exemplos arrastam”!

 

 

 

 

 

 

 

APRENDER A SOFRER: É DE PEQUENINO QUE SE TORCE O PEPINO, PODE CRER!

(Claudia Pedrozo)

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Hoje estava “zanzando” pela internet e vi um texto que me chamou a atenção. Contava a história de um garoto norte americano, Halsey Parkerson, que estava sendo assediado moralmente na escola por outro adolescente; ou seja, Halsey estava sendo vítima de bullying. Outro estudante o chateava constantemente dizendo que ele não tinha amigos. Numa dessas situações Halsey estava almoçando com a tia quando foi assediado moralmente  pelo colega de escola. A tia percebeu a situação e para ajudar o sobrinho, organizou um evento no Facebook e no dia seguinte mais de cem pessoas compareceram à porta da escola, no horário da saída, para mostrar ao agressor que sua vitima tinha amigos. Fortalecido pela situação, Halsey conseguiu se impor ao seu agressor, que diante da multidão acabou se retratando.

Embora a história seja interessante e pudéssemos fazer inferências sobre ela, analisando o agredido, o agressor e a solução encontrada pela tia, o que me chamou mais a atenção foi o comentário postado por um leitor da reportagem.

O leitor escreveu que se o filho dele sofresse bullying, ele resolveria o problema tirando o garoto da escola, deixando-o por um ano afastado desse ambiente, só fazendo cursos prazerosos que aumentassem a auto estima do filho. Passado este tempo o colocaria para estudar em outra escola. Segundo ele isso resolveria o problema.

Fiquei preocupada! (Tomara que ele seja só um palpiteiro, aquele tipo de pessoa que entra numa discussão só para dar palpites, sem que tenha qualquer vivência relacionada ao problema exposto).

Será que a melhor solução seria a fuga?  Ou seria o enfrentamento?

Eu opto pela segunda alternativa. Fugir em qualquer idade nunca, jamais, é a solução! A fuga só nos faz recalcar os sentimentos, bons ou ruins e, mais tarde, estes fantasmas voltam para assombrar nossa vida, seja na forma de doenças emocionais, na forma de conversões, numa autoestima baixa, seja por transferências – projeções ou deslocamentos – que fazemos e que interferem diretamente em nossas escolhas.

Fugir não nos  fortalece, ao contrário nos torna reféns de medos, de inseguranças, de registros emocionais negativos que assombrarão nossas vidas, fazendo-nos sofrer. Se você parar para pensar vai lembrar-se de situações que você viveu e que foram dolorosas. Vai rever os sentimentos e desdobramentos que surgiram quando você enfrentou a situação e também vai atualizar os medos e sentimentos das situações nas quais você optou por fingir que não aconteciam. Tenho certeza que seu coração vai disparar!

Como pais não queremos ver nossos filhos sofrendo, mas com que direito e em nome de que amor, os  tornamos pessoas fracas, com baixa resistência às frustrações e problemas da vida? Queremos proteger a eles ou a nós mesmos? É amor ou  projeção? (lembrando que projeção é um mecanismo de defesa do ego onde atribuímos aos outros aquilo que é nosso e que, inconscientemente, não aceitamos em nós!)

Nossa tarefa enquanto pais é ajudar nossos filhos a se desenvolverem plenamente e isto inclui aprender a sofrer do tamanho certo. Nem mais, nem menos!

Você deve estar pensando: mas que coisa maluca é essa de sofrer do tamanho certo? É algo bem simples. Na Psicanálise aprendemos que a dor é obrigatória, mas o sofrimento é opcional. Não podemos impedir a doença de chegar, um ente querido de morrer, enfim não temos o poder de evitar as dores da vida, mas podemos escolher viver esta dor numa intensidade normal ou anormal. Isto é algo trabalhoso, mas possível quando equilibramos nossa emoção e nossa razão. Aprender a mesclar razão e emoção é um aprendizado que começa desde a mais tenra idade.

Por isso, a mensagem de hoje é básica: “Pais, ensinem seus filhos a sofrerem na medida certa! Na vida valorize o sofrimento do jeito certo. Não adianta dizer a um filho que sofre (por qualquer motivo que para nós é banal, mas para ele é imenso) que não é nada… para ele é sim! Deixe-o ficar triste, desanimado na medida certa, afinal, faz parte da vida viver a dor e este período de luto o ajudar a elaborar, enfrentar usando o ego que avalia racionalmente o sofrimento. Mas evite dar à dor uma dimensão superdimensionada.

Protejam sim, seus filhos, mas não o superprotejam. Afinal  aquilo que não nos mata, fortalece! E, por mais que queiramos, não somos eternos e nossos filhos não são nossos!

 

A saúde do imperador-criança

(Dra. Karen Câmara)

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A China foi um império durante milhares de anos. O imperador era considerado a pessoa mais importante do país, inclusive com atributos que o aproximavam de uma divindade. A segurança do imperador era tão crucial que toda uma cidade foi construída em volta do seu palácio, aquilo que hoje se chama A Cidade Proibida em Beijing.

A educação e a saúde do imperador eram de suma importância. Se alguém viu o filme  O Último Imperador do diretor italiano Bernardo Bertolucci, deve se lembrar de uma cena em que o imperador ainda era criança e suas fezes aparecem dentro de um penico.  O médico olha, movimenta o cocô dentro do penico para ver sua consistência, cheira os excrementos e então diz:  “Menos carne”. Ele queria dizer que a alimentação do imperador-menino devia conter menos carne. O médico examinava as fezes do menino para poder ajustar corretamente sua dieta. As ordens do médico deviam ser seguidas pela cozinha do palácio. O imperador-criança tinha que comer o que fazia bem para sua saúde e não apenas o que lhe agradava. Sim, porque a preservação de sua saúde era assunto de Estado. Todo o império dependia dele e de suas decisões. Mas, veja bem, a saúde era preservada. Dizem que os médicos do imperador só recebiam seus honorários enquanto o imperador estivesse com boa saúde. Quando o imperador adoecia, os médicos deixavam de receber seu pagamento. Isso, é claro, era um incentivo para que os médicos se concentrassem muito mais em preservar a saúde do que em curar as doenças.

Educação e Saúde estão tão interligadas, tão entrelaçadas que é difícil dizer qual é mais importante. A meu ver, Educação vem primeiro. Através da Educação é possível melhorar, e muito, a Saúde. As crianças precisam das duas coisas desde o início e, para isso, as mães têm que ser educadas. São elas que cuidam das crianças nos seus primeiros anos de vida. São elas que formam as próximas gerações. Portanto, para criar as crianças, precisamos educar primeiro as mães.

Outro dia uma mãe me disse que a filha, de seis anos, tinha prisão de ventre crônica e muitos gases. Sofria de frequentes dores na barriga e não conseguia evacuar bem. Quando conseguia, eram fezes duras e ressecadas. Perguntei o que a criança comia e a mãe disse que era principalmente arroz, macarrão, pão e bolachas. “Só?”, perguntei eu. “Acontece que ela não gosta de verduras, legumes e frutas”, me respondeu a mãe.

É claro que a filha tinha prisão de ventre. Com essa dieta, seria difícil não ter prisão de ventre. O que está faltando aqui? Educar a mãe, que parece não saber como alimentar a criança. Ora, criança não deve comer apenas o que quer. A mãe tem que saber o que faz bem  à saúde da criança, assim como os médicos do imperador. A mãe deve ajustar a dieta às necessidades da criança. É claro que também tem que adaptá-la ao gosto da criança.  Mas essa mãe não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo e muito menos de como proceder. Então, por conta própria, dava este e aquele medicamento para a criança e nada resolvia. Não resolvia porque ela estava querendo eliminar os sintomas ao invés de lidar com as causas do problema. O problema era a dieta. Uma dieta pobre em fibras, rica em farinha branca, cheia de açúcar refinado, sem as fibras proporcionadas pelas frutas, verduras e legumes. Investiguei mais um pouco, vi que a criança tomava pouca água e bastante refrigerante. Como se não bastasse, fazia pouco exercício físico, ainda mais depois que passou a ter dores na barriga causadas pela prisão de ventre. Estava, então, completo o quadro para que desenvolvesse uma bela constipação intestinal: dieta pobre em fibras, ingesta inadequada de água e pouco exercício físico.

Como solucionar isso? Segundo a mãe, com medicamentos! Sim, por falta conhecimentos, ela dava remédios para a filha, crente que estava fazendo o melhor. Cada vez que ia à farmácia, o balconista lhe empurrava mais um medicamento e ela, toda esperançosa, dava para a criança. Como isso não resolvia o problema, ela achou que os medicamentos eram ineficazes. Foi aí que o caso chegou até mim.

Conversei com a mãe, expliquei que o problema da criança poderia ser resolvido sem uso de medicamentos. Bastaria fazer algumas mudanças na dieta e no estilo de vida. A mãe aceitou as sugestões, implementou as mudanças e depois me disse que a filha havia melhorado.

A mãe teve que ser educada para que a saúde da criança melhorasse.

Falando em Educação, terça-feira foi Dia do Professor. Parabéns a todos eles!

 

 

Alguns pais… melhor não tê-los!

(Claudia Pedrozo)

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Nesta semana estava eu na fila para almoçar, quando ouvi, sem querer, daquele jeito que vocês já conhecem, a conversa de duas pessoas. Pelo que pude perceber uma era a mãe e a outra uma amiga dela.

A mãe relatava à amiga a dificuldade que está tendo com a escola do filho. Um garoto de 11 anos, que está em pleno desenvolvimento, com os hormônios à flor da pele e que sempre foi expressivo e dinâmico. Era evidente o orgulho que a mãe tem pelo filho.

Ela estava desolada porque é sempre chamada à escola do garoto e na visão da instituição de ensino ele é um problema.

A amiga perguntou o que ele faz para a escola pensar isso e a mãe contou que algumas vezes foi chamada à escola, inclusive que o menino já fora suspenso das atividades escolares porque ele bateu em alguns colegas menores (mas que com certeza fora provocado para ter tomado tal atitude), outra vez ele ridicularizou um colega de classe que é surdo e tem dificuldades na fala, em outra ocasião teve uma crise de riso ao ver uma colega convulsionando na sala de aula e só por isso a professora ficou muito chateada e levou a situação para a Equipe Pedagógica da escola, que a chamou para contar o ocorrido e solicitar que conversasse com o aluno sobre a necessidade de respeitar os outros.

A amiga disse algo sobre ele ser danadinho e a mãe saiu em defesa do filho, alegando que ele havia pedido explicações para a professora acerca do que estava acontecendo e a professora (na ânsia de acudir a garota que estava convulsionando, creio eu!) não parou para explicar. A culpa da reação dele, no entender da mãe, foi da professora.

Mas não parou por aí… (nunca comi tão devagar!). Outra ocorrência relatada dizia respeito a uma história que ele escreveu na agenda que a escola usa para a comunicação com a família. Na história ele relatava um sonho no qual estava fazendo sexo com alguém. A mãe foi novamente chamada à escola. E mais uma vez a escola foi responsável pelo problema, porque afinal, a agenda pertence ao garoto e ele havia colocado uma observação de “Professora, não leia!, Diretora, não leia!”. Ora elas leram porque quiseram. Alegou ainda que o que a Equipe Escolar tinha feito se configurava numa invasão à privacidade do menino. A amiga até tentou fazer a mãe ver que ele poderia ter escrito em outro lugar, poderia ter um diário, por exemplo, uma vez que a agenda é um veículo de comunicação da escola. A mãe não se deu por vencida. Está pensando em mudar o filho de escola, afinal a escola atual só persegue o filho dela e não faz nada do que a psicóloga do menino manda fazer! Esta meio angustiada porque os outros dois irmãos – uma garota mais velha e um garoto mais novo que o “anjinho” em questão – estudam nesta escola e não querem sair. Talvez o jeito seja trocar só o filho mais contestador. Ela até entende que ele precisa de mais atenção, a psicóloga já falou isso para ela, mas ela faz tudo que pode por ele. Ele sofre porque é incompreendido! Mesmo quando ele conta pela escola que cicatriz de queimadura horrorosa que a irmã tem é culpa dele, ele só quer atenção! (Palavras da mãe)

Bem… o que podemos inferir disso tudo? Podemos imaginar mil coisas…

Será que este filho foi planejado? Amado? Desejado? Será que esta gravidez foi tranquila para a mãe, emocionalmente falando? Será que esta mãe ama desta forma equivocada para se livrar de uma culpa, gerada em alguma etapa do processo? Talvez se pudéssemos olhar estes e outros detalhes com mais profundidade talvez descobríssemos algumas causas para esta (má) educação.

E quanto ao garoto? Segundo a mãe ele tem problemas depressivos e a escola não entende. Mas uma criança não tem estes comportamentos se não aprendeu a agir assim ao longo da vida. Talvez ele tenha recebido tanta atenção, tanta proteção, como forma equivocada de amor, que aprendeu que pode fazer e agir como bem entender, com o aval daqueles que deveriam educá-lo.

Ele é puro ID, nossa instância do prazer, puro narcisismo primário, é o “bebê onipotente” que ainda não cresceu e não vai crescer nunca se continuar por esse caminho.

Ambos precisam de ajuda… Somos seres desejantes, é natural querer prazer, buscar o prazer imediato. Porém a vida é cheia de nãos e a tolerância à frustração é uma capacidade humana que precisa ser aprendida e os pais, no processo de educar, são os responsáveis por nos ajudar a desenvolvê-la.

Você tem ajudado “seu” filho a aprender a se frustrar diante dos “nãos” da vida?

Transtorno Bipolar, tem certeza?

(Claudia Pedrozo)

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Nestes tempos modernos as doenças emocionais são diagnosticadas numa velocidade que algumas vezes beira o desleixo com o ser humano. Hoje é comum ouvirmos as pessoas anunciarem com orgulho que possuem algum transtorno de comportamento, a que a Psicanálise chama de Neuroses (Transtorno Obsessivo Compulsivo, Síndrome do Pânico, por exemplo) ou de Psicoses (Esquizofrenia, Transtorno Bipolar, Paranoia). Parece que receber o diagnóstico alivia e explica as atitudes e sofrimentos vivenciados pelo indivíduo e seus familiares, talvez alivie a culpa por ter falhado em alguma coisa, mesmo que este diagnóstico seja o de uma doença mental grave, como o são as Psicoses.

Recentemente conversando com uma conhecida, ela me contou sobre sua irmã de 15 anos, que foi diagnosticada pelo psiquiatra como portadora do Transtorno Bipolar. Olhei admirada e perguntei o que a irmã fazia que justificasse o diagnóstico.

Minha conhecida disse, desolada, que a irmã não tem mais jeito! Que faz coisas malucas em casa, como ameaçar se jogar do prédio onde mora sempre que a mãe diz não a algum capricho, ameaçar quebrar a casa toda quando é contrariada pela mãe, fumar de forma afrontosa diante da mãe, que não quer que ela fume, sair vestida de forma bem vulgar e ter aventuras sexuais com muitos meninos. O engraçado disso tudo é que a garota só surta quando é contrariada. Quando a mãe vai leva-la em alguma “baladinha”, ela vai o caminho todo ofendendo a mãe e ameaçando se jogar do carro se a mãe diz não para alguma de suas vontades. Se a mãe ameaça contar aos amigos o tipo de comportamento que ela tem, na hora ela muda de atitude. Neste dia em que conversamos minha conhecida me falou que estava preocupada com a irmã, que simplesmente tinha feito as malas e ido, sozinha e sem a autorização da mãe, passar uma semana numa outra cidade, na casa de algum parente. Também estava preocupada com a mãe, que estava ficando deprimida com toda essa situação conflitante. A garota abandonou a escola, porque não queria acordar cedo para estudar, então faltava, faltava e faltava. Faltou tanto que acabou perdendo a vaga. O médico que diagnosticou o Transtorno Bipolar passou a medicação, mas a moçoila se recusa a tomar.

Enfim a situação nos lembra um trem bala sem freios!

Bem… não conheço a irmã da minha conhecida. Nunca a vi, mas posso inferir (fazendo o que chamamos de Psicanálise Selvagem, aquela que a maioria dos leigos faz, dando palpites nas situações) que a garota sofre de… falta de educação, mais precisamente de falta de limites!

O Transtorno Bipolar, antes chamado de Psicose Maníaco Depressiva, é uma patologia grave caracterizada pela alternância de estados depressivos e maníacos, sendo estes entendidos como estado de imensa euforia, onde o indivíduo se acha um deus, se acha invencível, acredita que tudo pode fazer. Fica inconveniente, faz coisas impensáveis, pois perde a inibição social. Na fase depressiva o humor fica depressivo, a auto estima fica baixa, o sujeito só quer ficar na cama, dorme o dia todo, mas não é um sono reparador. Do nada o estado pode se alterar para o estado oposto extremo.

As causas do Transtorno Bipolar ainda são desconhecidas. As pesquisas mostram-se inconclusivas. Acredita-se que a combinação de múltiplos fatores deflagre a doença, entre eles a genética facilitadora e a influência de fatores ambientais e psicossociais.

Levando em consideração que a adolescência é uma fase da vida marcada por grande “stress”, onde o jovem está mais inseguro, indefinido, sendo invadido por uma enxurrada de hormônios, que o levam a uma maior exposição a comportamentos de risco, regados a irresponsabilidades, tais como uma sexualidade desregrada e o uso de drogas ilícitas, este pode ser o cenário perfeito para o surgimento da doença.

Todos nós passamos por variações de humor ao longo da vida. Um dia estamos mais tristes em outros mais eufóricos. Porém isso não quer dizer que sejamos portadores desta patologia.

No caso da irmã da minha conhecida, vejo sintomas de uma rebeldia adolescente, aliada a questões edipianas mal resolvidas, a uma baixa auto estima, a um sentimento masoquista consigo mesmo e sádico com a mãe que precisa ser punida em função do conflito edipiano. Também há a possibilidade de um possível agravante de assédio sexual sofrido pela menina na infância. O que esta adolescente mostra é a existência de muitos conflitos recalcados que devem ser resolvidos para que não evolua para uma patologia psicológica realmente mais grave, como a que foi diagnosticada pelo médico.

Sugiro uma boa terapia para as duas, mãe e filha! Uma para se reconhecer no papel de mãe, deixando de se deixar manipular pela jovem de 15 anos e a garota para que possa se entender, resolver seus traumas e conflitos… ambas merecem parar de sofrer.

Homossexualidade e Adolescência

(Claudia Pedrozo)

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Hoje vamos conversar um pouquinho sobre um assunto polêmico, cercado de tabus e preconceitos e não tenho a intenção de esgotá-lo, nem de levantar bandeiras ou fazer julgamentos. Escolhi este tema em função de uma vivência que tive numa escola em São Paulo, no final do ano passado.

Certo dia em visita a uma das escolas sob minha supervisão, a diretora estava perplexa devido a um acontecimento vivido por ela na noite anterior. Relata que chamou a mãe de uma aluna da 2ª série do Ensino Médio que estava com problemas de faltas reincidentes e sem justificativas. Ao apresentar a situação para a mãe, esta se surpreendeu, pois a jovem, todos os dias, saia de casa para ir à aula! A mãe indignada com a atitude da filha pediu à diretora que chamasse o irmão da garota, que estudava na 1ª série do Ensino Médio e que saía junto com a irmã todos os dias em direção à escola. Ao chegar à sala o rapazinho, ao ser “inquirido” pela mãe e pela diretora, desatou a chorar. Ninguém entendeu bem o motivo, até que ele olha para a mãe e diz que precisa contar uma coisa muito importante para ela. De sopetão diz: “Mãe, sou gay! Não contei para você o que estava acontecendo porque se contasse a Ana (irmã) ia me entregar.” Silêncio na sala. A mãe chocada, a diretora perplexa e o menino… aliviado! Afinal o segredo guardado a sete chaves e que rendeu muita chantagem por parte da irmã fora finalmente revelado à mãe. Passado o susto inicial a diretora procurou auxiliar mãe e filho.

Apesar da homossexualidade ser tão comum em nossos dias, é ainda tratada com muito preconceito, fazendo muita gente sofrer. Diante da polêmica há inúmeras correntes que a classificam de mil formas diferentes. Quem está certo? Quem está errado? Não cabe a nós julgarmos.

Minha crença é de que esta não é uma questão de certo ou errado. É uma questão relacionada à identidade sexual ser diferente da identidade biológica.

Devemos entender que a homossexualidade não é uma perversão, não é uma doença que pode ser curada com remédios ou terapias (como terapeutas nosso trabalho é ajudar o paciente a ser feliz com suas escolhas!).

Homossexualidade é uma opção sexual, uma escolha de como viver a sexualidade. Por motivos singulares e inconscientes escolheu-se amar alguém do mesmo sexo. Quando observamos o alterego – padrões sociais – percebemos que esta escolha pode ser um processo doloroso, carregado de medos, culpas, fantasias e muito sofrimento diante da possibilidade de humilhações, preconceitos, exclusão, rejeição, entre outros sentimentos negativos.

Isto explica a reação do irmão da “matadora de aulas” e de tantos outros, adolescentes ou adultos, que se escondem atrás de uma máscara de heterossexualidade, regada de infelicidade para ele/ela e para os parceiros(as) escolhidos(as), que se constituem naquilo que a Psicanálise chama de “objetos”, neste caso, “parciais”.

Muitas vezes a revelação da homossexualidade na adolescência é fruto de vivências sexuais prazerosas com pessoas do mesmo sexo no período de desenvolvimento da sexualidade nas Fases Fálica (que ocorre por volta dos 3 (três) aos 6 (seis) anos e se caracteriza pela descoberta da própria sexualidade, marcando a fase do auto prazer pela manipulação genital, sem conotação sexual)e Genital (que se inicia por volta dos 11 (onze) anos e se caracteriza pela retomada dos impulsos sexuais, momento onde o adolescente passa a buscar um objeto de amor em pessoas fora de seu grupo familiar).

Na Fase Genital é comum que a moçada sinta curiosidade pelo corpo do outro. Nesse exercício de conhecer e comparar é comum o contato homossexual, numa situação temporária motivada pela curiosidade e pelo desejo natural de sentir prazer sexual. Todos passamos por isso. Experimentar não define nossa opção sexual. Por isso, muita calma nessa hora, minha gente! Oproblema acontece quando a vicência de satisfação causa danos a posteriori (grosseiramente, quando a ficha cai e o prazer se choca com nossos valores)!

A relação entre Homossexualidade e Complexo de Édipo também é bem debatida e aceita. Mas esta é uma conversa que teremos logo ali.

Diante disso tudo, penso que cabe uma sugestão: vamos exercitar olhar o outro com empatia… o preconceito expressa nossos recalques. A receitinha básica pode ser o contínuo, lento, gradual e trabalhoso exercício de se colocar no lugar do outro. Foi o que fez a diretora lá de São Paulo. Quanto à mãe, o que querem todas as mães? A felicidade dos filhos… Para isso ela exercitou – e ainda exercita – com sabedoria o amor incondicional. Afinal, “a medida de amar, é amar sem medida!”

AH, A TRANSFERÊNCIA!

(Claudia Pedrozo)

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Hoje fui visitar uma escola e quando lá cheguei havia um aluno do 9º ano (antiga 8ª série) na sala da Diretora. Aguardei que ela fizesse o atendimento dele e quando o aluno retornou à sala de aula, busquei saber qual ocorrência havia determinado sua visita à Diretoria.

A Diretora relatou que o aluno foi encaminhado por dois professores devido ao mau comportamento em classe, marcado por uma agressividade gratuita, principalmente com os professores homens e (descobrimos mais tarde, ao analisarmos melhor a situação), com os professores carecas.

No decorrer do dia a mãe do aluno compareceu à escola e relatou para a Diretora que o filho estava assim desde que ela havia “juntado as escovas” com o João.
Detalhe importante: o João é careca.
Coincidência? Não! Transferência.

O fenômeno da Transferência faz parte da vida de todo ser humano. É irreprimível, pois a pulsão é irreprimível! Segundo Freud é o maior processo da vida. Tudo que fazemos baseia-se em identificações inconscientes que nos levam a fazer escolhas que não sabemos de onde vem, mas que representam projeções do material que recalcamos em nosso inconsciente.
Só para refrescar a memória, recalcar é uma das nossas defesas. O recalque ocorre toda vez que fugimos de algo que desejamos, mas que vai contra os padrões estabelecidos em nosso ideal de ego (valores morais que aprendemos ao longo de nossa vida).

Em outras palavras Transferência é o processo pelo qual o material recalcado “guardado” em nosso inconsciente – desejos, tendências, sentimentos, fantasias, emoções – se atualiza sobre determinados objetos (pessoas (marido/esposas, amizades), coisas (casa, carro, entre outros) e sistemas (profissão, emprego, casamento, por exemplo).

A Transferência pode ocorrer por deslocamento (de sentimentos e emoções) ou por projeção (de desejos, tendências e fantasias).

Há Transferências positivas e negativas. Por exemplo: Você recebe um elogio do seu chefe por alguma iniciativa tomada para melhorar os processos da empresa. Ao retornar à sua sala, elogia sua secretária. Esta é uma situação de transferência positiva. Digamos que você recebeu uma bronca do seu chefe no meio de uma reunião. Acabou o expediente e você foi para casa, lá chegando seu cachorro, feliz por te ver, pula em você, que muito irado o chuta ou repreende com uma grosseria exagerada e desnecessária. Você acabou de fazer uma transferência negativa.

Voltando ao caso do aluno agressivo com os professores carecas, percebe-se claramente o fenômeno da Transferência por deslocamento.

O garoto está deslocando nos professores que lembram o João a agressividade que gostaria de usar com ele, afinal, João é o cara que veio para atrapalhar, para “tirar” dele sua mãe, para “roubar” o amor que deveria ser só seu (ah! o Édipo por aqui!). Na verdade o alvo da raiva do aluno não são os professores, mas a identificação inconsciente que ele faz quando vê a figura do João no professor. Ele está inseguro e bravo com a situação e precisa extravasar isto de algum modo. Por transferência, ele agride os professores, atendendo ao desejo inconsciente de agredir o padrasto.

Cabe à mãe e ao João muita paciência e muito amor para vencer esta situação e ajudar o garoto a superar esta dificuldade, entendendo qual o papel do marido e do filho na vida desta mãe. São dois amores, cada qual com suas características e importância.

Bem… atire a primeira pedra quem nunca fez uma transferência! Ops, cuidado para não tropeçar nas pedras pelo chão!