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Bactérias são amigas ou inimigas?

(Dra. Karen Câmara)

bacteria

Como sempre, não há resposta fácil.

Percebe-se, ao nosso redor, uma verdadeira guerra às bactérias. Tanto leigos como profissionais de saúde se lançam com veemência ao seu combate. Será que isso é necessário? Será que é útil?

No texto da semana passada faço menção à suspeita que alguns casos de autismo podem estar relacionados ao uso repetido de antibióticos no tratamento de infecções de crianças. Essas crianças foram tratadas pelos seus pediatras que, tenho certeza, fizeram o que acreditavam ser o melhor para aquela criança naquela situação específica. Mas, pergunto eu, será que era mesmo necessário usar antibióticos em todas aquelas infecções? Essa é uma pergunta que o próprio médico da criança teria dificuldade em responder.

A medicina, assim como as outras ciências, está em constante evolução. A medicina tem protocolos que variam de acordo com a época e o lugar. Mas a medicina também é arte, e arte é algo que confere liberdade. Portanto, os médicos têm a liberdade de seguir esses protocolos mais de perto ou menos de perto. Nesse ponto me sobrevém a dúvida: quando é que medicamentos devem realmente ser usados? Qualquer medicamento pode produzir reações adversas nos pacientes que são sensíveis aos seus componentes. Como saber se o paciente é sensível? Não há como saber, a não ser expondo o paciente ao medicamento. A reação do paciente ao medicamento é única e imprevisível. Pode-se, no máximo, suspeitar que a probabilidade de ocorrer seja maior ou menor, caso o paciente já tenha apresentado sensibilidade antes. Vejo, no meu dia a dia, que a maioria dos pacientes não tem a menor ideia dos possíveis efeitos indesejados decorrentes dos medicamentos que eles usam.

Antibióticos devem ser usados com critérios bem estabelecidos. Em primeiro lugar, só devem ser usados quando são realmente necessários. Em segundo lugar devem ser usados exatamente nas doses prescritas, nos horários determinados e pelo tempo indicado. Não mais, não menos. Antibióticos são excelentes armas se forem usados corretamente. Caso contrário, podem produzir mais mal do que bem. E, mesmo usados corretamente, podem produzir efeitos a curto e a longo prazo. Alguns desses efeitos são conhecidos enquanto outros só estão sendo revelados agora.

Há não muito tempo, cerca de 3 anos, antibióticos eram vendidos livremente em nosso país. O consumidor só tinha que ir à farmácia, comprar o medicamento e usar a esmo. Até que enfim a venda dos antibióticos passou a ser controlada no Brasil. A venda restrita, ou seja, apenas com prescrição médica, já acontecia em outros países há décadas. Há duas boas razões para esse controle: a possibilidade de reações adversas nos pacientes e o surgimento de bactérias resistentes aos antibióticos. No organismo há bactérias úteis, algumas até necessárias para nossa saúde, e bactérias potencialmente perigosas. Os antibióticos não eliminam todas as bactérias do organismo, apenas algumas, aquelas que são sensíveis a eles. Portanto, podem eliminar bactérias úteis também. As outras, as que sobrevivem ao antibiótico, então podem proliferar e causar outras doenças.  Essas doenças são, portanto, causadas por bactérias resistentes a pelo menos um antibiótico.  Essa é uma situação que está fugindo ao controle. Temos cada vez mais bactérias resistentes e menos antibióticos eficazes.

Li recentemente um relatório publicado pelo CDC (Center for Disease Control and Prevention – Centro de Controle e Prevenção de Doenças), instituição governamental de saúde, baseada nos Estados Unidos, que fala sobre os perigos da resistência bacteriana aos antibióticos.  O relatório encontra-se no site: http://www.cdc.gov/drugresistance/threat-report-2013/pdf/ar-threats-2013-508.pdf . Ele contém informações sobre o estado atual da resistência bacteriana aos antibióticos nos Estados Unidos. Acredita-se que cerca de 50% das prescrições de antibióticos seriam desnecessárias, ou seja, o paciente poderia ter se recuperado sem o medicamento. Também seria desnecessário o uso sistemático de antibióticos na criação de animais e produtos derivados que nos servem de alimentação. O uso indevido e o manejo inadequado de antibióticos em muito contribuem para o surgimento da resistência bacteriana. Estima-se que mais de 2 milhões de casos de doenças são provocadas por bactérias resistentes a antibióticos a cada ano. Não temos nenhum relatório sobre o assunto no Brasil.

Sabe-se que, a cada década, é cada vez menor o número de antibióticos descobertos e desenvolvidos pela indústria farmacêutica e é cada vez maior o número de bactérias resistentes aos antibióticos existentes. A situação é alarmante.

Mas a guerra sistemática contra as bactérias usa outras armas além de antibióticos.  Sabonetes bactericidas e enxaguantes bucais são usados para reduzir o número de bactérias nos meios em que atuam. Não entendo por que usá-los no dia a dia, sem uma razão específica. Eles costumam destruir o equilíbrio da flora normal que habita nossa pele e boca, tornando nosso organismo mais vulnerável a doenças.

Temos que aprender a viver em equilíbrio, inclusive com as bactérias que nos habitam e que estão presentes no meio em que vivemos.

 

Será que eu preciso de medicamento?

(Dra. Karen Câmara)

depre

As pessoas se perguntam muitas vezes, se devem ou não tomar medicamentos, principalmente na área da psiquiatria. Quando um paciente deve ser medicado?
Deve-se combater toda e qualquer depressão? Qual é a diferença entre tristeza e depressão?

No século dezenove, entre os escritores e poetas da época do Romantismo, a tristeza era considerada uma emoção a ser cultivada. Acreditava-se que a melancolia podia inspirar a escrita criativa. A literatura romântica frequentemente possuía uma ambientação sombria, pessimista, soturna.

Hoje em dia as pessoas parecem ter horror à tristeza. Referem-se a ela como uma emoção que deve ser combatida a todo custo. Devemos ser felizes, alegres, contentes na maior parte do tempo e, quanto mais, melhor. Devemos, temos o direito, quase que a obrigação de sermos felizes. Ser feliz é muito bom mas a vida é feita de todas as emoções. A diversidade e o equilíbrio dessas emoções enriquecem a vida, nos proporcionando mais e melhores oportunidades de aprendizado.

Ora, a tristeza é uma emoção natural como outra qualquer e é absolutamente normal que sintamos tristeza diante de certos fatos e por alguns períodos durante nossas vidas. Ficar triste e se recuperar da tristeza faz parte da existência humana na terra. No entanto, quando a pessoa permanece triste por muito tempo e não se recupera como seria de se esperar, aí sim essa pessoa deve ser avaliada.

Ou então, quando o abatimento é tão intenso que afeta seriamente o humor e a rotina, quando traz grande sofrimento ou põe em risco a vida da pessoa, está na hora de buscar ajuda. Por exemplo, depois de uma grande perda, é normal haver inapetência por alguns dias e não há problema se a pessoa não se alimentar como de costume por algum tempo. Mas, quando ela come tão pouco que começa a perder peso continuamente e não dá sinais de melhora, é bom passar por uma avaliação médica.

Existem critérios definidos para se diagnosticar a depressão. Entre eles, podemos citar: tristeza, falta de energia, desinteresse por aquilo que costumava dar prazer, mudanças no apetite ou no sono – tanto para mais como para menos – falta de concentração, sentimento de fracasso, irritabilidade.

Os sintomas não estão todos presentes no mesmo indivíduo e podem variar de intensidade. As pessoas são únicas na sua forma de ser e de adoecer. O diagnóstico da depressão é feito quando pelo menos alguns dos sintomas estão presentes e o quadro persiste por mais que algumas semanas.

Nem sempre a pessoa tem condições de decidir se vai ou não procurar um médico. A pessoa pode estar tão deprimida que não consegue sequer tomar a decisão de ir ao médico e não tem iniciativa suficiente para marcar uma consulta. É aí que alguém próximo tem que intervir e tomar uma providência.

Uma vez no médico, é importante levar a maior quantidade possível de informações para que o profissional possa ter uma ideia melhor do quadro do paciente. Algumas características do paciente têm que ser observadas e relatadas por quem convive com ele porque passam despercebidas pelo paciente em si.

Depois da avaliação, o médico deve dar seu parecer quanto ao problema do paciente e dizer se é de opinião que um medicamento pode ajudar. O ideal seria que a decisão de usar ou não medicamentos fosse tomada em conjunto, pelo médico e pelo paciente. Isso só acontece quando há uma boa relação médico-paciente, o que envolve confiança e respeito de ambos os lados.