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Exemplo vivo

(R. C. Migliorini)

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Eu uso um pingente pendente em uma corrente presa ao pescoço. Essa corrente atrapalhava minha prática corporal de modo que eu sempre tinha que tirá-la nas aulas. Porém, como eu não conseguia fazê-lo por mim mesmo, pedia ao professor, Henrique Schuller que o fizesse.

Ao longo do trabalho, eu me arrisquei a tirá-la com minhas próprias mãos. Na ocasião, eu lhe disse que se um dia eu conseguisse colocá-la de volta sozinho, o processo estaria dando muito resultado. Minha afirmação não era de todo infundada, uma vez que essa ação envolveria colocar e sustentar o braço e a mão esquerda na nuca, segurar metade da corrente e mantê-la em posição. Só assim eu poderia engatar um fecho, cuja manipulação é bastante complicada, a um de seus elos. Tudo isso sem usar a visão – algo necessário devido à minha alta miopia.

Ontem, eu resolvi tentar colocá-la de volta só para ver o que aconteceria, e para minha surpresa, consegui. Eu fiquei tão atônito com o ocorrido que precisei me certificar do que fizera. Embora eu esteja cada dia mais feliz, confesso: ainda continuo um pouco espantado.

Então, não foi à toa que na aula falamos da relação ombros, costas e cabeça. Consequentemente, do braço e da mão esquerda. Como prova a descrição acima, essa relação melhorou muito em mim. Com os ombros mais afastados e o espaço entre eles e as orelhas maior, as costas estão mais largas e presentes. Em consequência, eu me encontro mais ereto e equilibrado, olhando mais na linha do horizonte (eu olhava para o chão) e avançando bem melhor no espaço; o peito, em vez de estufado, está mais harmônico com todo o resto e a musculatura abdominal está mais presente, o que, entre outras coisas, diminui a barriga.

Resumindo, é como se os ombros e as clavículas se assentassem tranquilamente em uma “cama” óssea e a cabeça se elevasse em direção oposta como uma antena a perscrutar o horizonte.

Então, eu percebi que desde o começo das aulas, eu notava, de forma inconsciente, essa relação no corpo do meu professor e que vinha me espelhando nele todo esse tempo. Assim, compreendi que ele me ensinava não só com palavras, mas também com exemplos.

Ele, então, me lembrou de que quando nos conhecemos anos atrás, seus ombros eram muito próximos um do outro e suas costas, muito estreitas. Graças ao trabalho a que se submeteu ou que realizou em si mesmo, seu corpo mudou, assim como o meu também está mudando

Quase um déjà vu

dejaQuase um déjà vu

(Rogério C. Migliorini)

Daqui a menos de uma semana farei uma cirurgia de catarata. Se não fosse por três motivos, não haveria nada de especial nisso. O primeiro e o mais grave é que um oftalmologista me falou dos altos riscos envolvidos na intervenção decorrentes da minha alta-miopia. O segundo é que eu já passei por uma cirurgia. Como ela me deixou com uma sequela, no mínimo desagradável, eu havia jurado que nunca mais entraria na faca. O terceiro é que minha catarata é precoce. Assim, os riscos que estão sendo antecipados uns vinte anos, talvez fossem menos significativos numa idade mais avançada. Entretanto, ou eu faço a cirurgia e corro o risco de perder a visão no futuro, ou não a faço e a perco agora.

Mas além de um segundo médico ter me tranquilizado enormemente, ontem li um texto que eu escrevi há alguns anos e que também me acalmou. Nele eu falo que estivera a observar uma região do jardim que não era constantemente cuidada. Com a abundância de chuvas, as flores e o mato cresciam tanto que ficava difícil passar entre eles. Porém, a situação oposta também existia. Nos períodos de seca nada crescia, e grande parte da vegetação morria.

Quando isso acontecia, a flor do jardim não fazia drama, não reclamava, não insistia em salvar-se, muito menos se revoltava e, até onde eu sabia, não sofria. Sua existência consistia na aceitação do que viesse. Suas únicas formas de expressão eram crescer e vicejar ou secar e morrer. Tudo feito silenciosamente, sem dramas.

No entanto, quando chovia e as flores brotavam, ficavam lindas.

Então, eu vi aí a possibilidade de vislumbrar meu pequeno drama de modo diverso. Pensei: se a primeira cirurgia não foi tão bem sucedida a ponto de ter se tonado o símbolo do início de uma fase bastante ruim em minha vida, a saída dessa mesma fase poderia implicar que eu revivesse experiências similares de uma forma inversa e bem mais auspiciosa. Seria um quase déjà vu, ou como voltar para um mesmo ponto em uma espiral, ou seja, em outro nível.

Também pensei que seria besteira pensar que fazer essa cirurgia precocemente determinaria a perda da minha visão aos setenta anos, pois isso poderia nunca acontecer. Nesse caso, eu ganharia vinte anos de visão sem óculos.

Mesmo que exotérico e místico ou irrealista e mágico, acrescido da opinião do segundo médico e de prognósticos reais, esse modo de ver a coisa é bem mais esperançoso. Então, vamos à faca, doutor. 