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O pneu furado do bonde do Faustão

(R.C.Migliorini)

christiane torloni na danca dos famosos

Acabei de ver o quadro “A dança dos famosos”. Discordo dele porque é raro uma única pessoa ter um desempenho ótimo em todos os ritmos.

Tomemos o exemplo do funk. Vários famosos por volta dos quarenta ou cinquenta falaram que nunca dançaram esse ritmo, sendo que nenhum deles foi bem ao dançá-lo. Ora, o funk não favorece essa faixa etária; É uma dança jovem, criada por jovens e para jovens. Até o figurino usado é de jovens. Além disso, é uma dança que exalta a beleza física e a força atlética de jovens. Eu nunca aplaudiria de pé um artista mais velho que tentou demonstrar esses atributos, como fez a plateia. Antes me solidarizaria com ele ou ela, porque, na verdade acho tudo isso bizarro e humilhante.

Lembro-me do tango dançado por Cristiane Torloni. O artista bastante jovem que competia com ela ficou em segundo lugar. Atleticamente ele era muito mais habilidoso do que ela, mas não era isso que estava em questão. Além da maturidade exigida pelo tango, faltava-lhe um corpo tão anatomicamente adequado para essa dança quanto o dela. Se naquele dia o ritmo escolhido fosse o funk, o resultado seria inverso.

No domingo passado, neste mesmo quadro, falou-se da necessidade da desconstrução de modelos antigos para criação do novo. Logo em seguida foi divulgado um livro que defendia o que chamava de moda intuitiva, ou seja, a necessidade de não se copiar os ícones da moda sem nenhuma crítica.

No caso da sensualidade requerida pelo funk, a de uma pessoa de quarenta ou cinquenta é diferente do que a de uma pessoa de vinte. Um corpo bem acima do peso também pode ser sensual, mas ao buscar essa sensualidade como faz alguém com um corpo que não seja obeso, é ridículo.

A pessoa criativa pode ser sensual, segura e transmitir sua força vital, porque gosta do seu corpo, da sua profissão e de si. Daí não precisa ficar travada, ou transmitir a imagem de alguém com autoestima baixa, porque não teima em espelhar-se nos outros e em enxergar em si apenas desvantagens. Assim, creio que esse bonde levaria muito mais pessoas se, em vez de colocá-las todas no mesmo saco, as levasse a ver sua particularidade e beleza individual.

Contudo, já que ele não faz isso, façamos nós: tentemos veicular a imagem do poder da pessoa criativa. De certa forma, para isso basta imaginar a Cristiane Torloni dançando funk vestida com as roupas e exibindo os modos de uma adolescente poposuda.