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“Virei paciente”

(Dra. Karen Câmara)

dia do médico 3(4)

Não gosto que minha rotina seja quebrada ou bagunçada de repente, sem meu consentimento, sem aviso prévio. Acho que ninguém gosta.

Na segunda-feira passada tive uma sessão de terapia que provocou um abalo sísmico dentro de mim. Eu era a analisanda, não a analista. De repente algumas placas tectônicas internas se moveram, enxerguei uma porção de coisas, fiquei agitada, desarrumada por dentro, os pensamentos confusos.

Saí da terapia e fui direto para o trabalho. O enfermeiro que trabalha comigo viu que eu estava meio estranha e começou a verificar meus sinais vitais: pressão arterial, frequência cardíaca, glicemia. A pressão subiu. O coração não só acelerou como passou a bater fora do compasso. Os pensamentos ficaram confusos e se manifestavam em uma fala repetitiva, sem muita lógica.

Pois é. Somatizei. Converti.

Claro que eu queria continuar meu dia conforme o costume, mas não me deixaram. O enfermeiro chamou minha filha, que foi me buscar no trabalho e me levou direto para o hospital. Passei por vários médicos, todos com um jeitinho muito simpático, mas com idade para serem meus netos. Eu, num mau humor daqueles, questionava tudo, discordava de tudo, só queria ir embora para casa. Eles tateando, tentando me tourear, talvez meio intimidados pelo fato de eu ser médica e ter cabelos brancos. Olhei os CRMs nos carimbos: todos altos, três vezes maiores que o meu, todos formados há pouco tempo. Depois de uma verdadeira campanha de convencimento, fui internada, muito a contragosto. Sabe aquela situação em que você diz “aceito, mas não concordo”?

No dia seguinte, depois de uma noite péssima, eis que surge um médico que parecia bem mais velho que eu.
“O que você teve?” ele perguntou.

“Uma arritmia e uma suspeita de AIT”, disse eu. (Obs: AIT quer dizer Acidente Isquêmico Transitório, ou seja, um pequeno derrame).

Ele franziu a testa, cerrou as sobrancelhas, fez uma cara feia.
“Isso é diagnóstico! Eu quero saber dos seus sintomas!” disse ele peremptoriamente.

Baixei a cabeça. Murchei as orelhas. Fui para meu lugar. Naquela instante, naquele lugar, meu papel era de paciente. Cabe ao paciente, e só a ele, relatar seus sintomas. Cabe ao médico, e só a ele, elaborar hipóteses diagnósticas. É claro que os dois têm que trocar informações e um ajuda o outro. É uma parceria. Mas cada um no seu lugar.

De repente fui lembrada disso e, meu Deus, que alívio! Finalmente começou a verdadeira consulta, através do estabelecimento claro dos papéis e de suas funções naquela nascente relação médico-paciente. Alguém que vai me ouvir, que quer saber o que eu senti. Ele assumiu o papel de médico e me tratou como paciente, que era meu papel naquele momento. Me ouviu, me examinou com calma, viu meus exames anteriores com atenção. Explicou a gravidade do que eu tinha e os possíveis riscos. Estabeleceu uma linha investigativa. Disse quais os exames iria pedir e por que. Deu um prognóstico. Aprendi muito naqueles poucos minutos de visita.

Ufa, encontrei um médico de verdade! Como os de antigamente. Eles ainda existem.

Ele pediu um exame e colocou seu carimbo. Uau! Um CRM baixo!

Precisou surgir alguém com um CRM muito menor que o meu para me colocar em meu lugar.

É nessas ocasiões que percebemos que não somos nada, apenas desempenhamos papéis diferentes nas mais diversas
situações.

Pelo vale da sombra da morte

(R. C. Migliorini)

“Eis que aprendi
Nesses vales onde afundam os poentes:
Afinal, tudo são luzes
E a gente se acende é nos outros.
A vida é um fogo,
Nós somos suas breves incandescências.”
(Mia Couto)

EVOLUIRSEMPRE

Eu andei bem borococho nessas últimas semanas. Talvez porque eu estivesse precisando de um afago, escrevi um texto chamado “O afago nosso de cada dia”. Coincidentemente, durante esse período eu passei pela primeira sessão de uma terapia somática que se utiliza muito de massagem, o que, entre outras coisas, valeu pelo afago. Ainda mais que ela foi presente de por um amigo querido que é terapeuta, e que há muito tempo eu não via. Como essa técnica também usa muito o relaxamento e fazia muito tempo que eu não tinha sensações de férias, de relax, de abandono, de entrega, de curtição, de descompromisso, fiz um pouco disso nessa sessão.

Diante disso eu deveria estar contente, não? Até porque nesta, que foi a primeira sessão de uma série, experimentei sensações corporais que eu não sentia há duas décadas, e em decorrência brotaram várias memórias. Eu fiquei bestificado, emocionado e com uma mistura estranha de alegria e de tristeza. Passei uns dois dias pensando em morte e com a sensação de um hiato irrecuperável de vinte anos. Nada do que eu vivera tinha significado ou apontava para uma esperança. Minha vida me parecia mentirosa e ilusória: educação, colégios particulares, excelentes universidades, intercâmbio fora do Brasil, fluência escrita e falada em inglês, valores de uma família estruturadíssima e religiosa, amizades verdadeiras, amores vividos ou chorados, meu jeito de ser e por aí vai. Um passado, um presente e um futuro ocos.

Porém, misturado a todo esse ceticismo, havia uma sensação de confiança na vida e de que tudo ia dar certo.
Ontem me vi respondendo comentários em uma comunidade voltada pra pessoas com hemiplegia. Há duas semanas, eu não conseguia escrever pra eles. Eu lia as queixas, as dúvidas e as incertezas e ficava deprimido. Agora eu respondia a tudo isso com palavras de carinho e bom-humor, conseguindo transmitir confiança, otimismo, e tranquilidade. Então, hoje acordei, com a sensação de que eu tinha passado mais uma vez pelo “vale das sombras da morte”, saído dele inteiro e que curtia o sol. As minhas sensações tinham sido uma espécie de expurgo e de purificação. Como isso aconteceu? Foi isso mesmo? Eu não sei. Mas sei que foi assim que eu senti.

As defesas do ego

(Nathalia Paccola)

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Em terapia, fato comum quando a pessoa começa a se tratar é o enfrentamento com os recalques, que impede o acesso ao seu inconsciente buscando defender aquilo que se deseja mas se teme. Freud falou dessa resistência à psicanálise para designar uma atitude de oposição às suas descobertas, na medida em que elas revelavam os desejos inconscientes e infligiam, ao homem, um “vexame psicológico” ao contrariar os seus valores.

O paciente resiste se enfrentar, defendendo-se, já que a queda da máscara narcisa e egocêntrica o desnuda e nem sempre ele deseja ser visto como é, mesmo porque é algo que ignora. Toda vez que uma pessoa, ao se confrontar com necessidades que não podem ser atendidas sem se confrontarem com seus padrões de ego ideal / ideal de ego e superego, haverá o processo de defesa /resistência.

Desta maneira, o psicanalista encontra no analisando uma operação de auto-proteção, chamada de “Resistência Avançada de Primeiro Nível”, aquela que impede qualquer acesso ao material recalcado. Exemplo: acting out, fugir do consultório, amnésia infantil ou adulta, reação terapêutica negativa etc…

Quando o terapeuta consegue quebrar essa primeira resistência, surge uma outra defesa exercida pelo ego para tentar manter sua estabilidade emocional intacta, a “Resistência Avançada de Segundo Nível”, quando o paciente contra-investe e não permite que o material recalcado flua para ser analisado. Exemplo: formação reativa, idealização, atuação, intelectualização etc…

Não é fácil reestruturar valores (ideal de ego) e eliminar os ganhos de atenção (primários) e recursos materiais (secundários) que o ego obtém ao adoecer psicologicamente. Por isso, o psicanalista deve, com habilidade, insistir em falar nos assuntos desejados, mas temidos pelo indivíduo, buscando exercer a persuasão, pela sua empatia e neutralidade (não julga, não desenvolve preconceitos).

Vencidas as duas etapas de resistências, o paciente trará à luz do campo consciente o material recalcado, permitindo sua interpretação e a sua perlaboração, destruindo seus efeitos patológicos, reduzindo suas tendências primitivas, permitindo a sua cura.

Uma vez reikiano

(Paulo Sartoran)

Stardust

Inicio minha participação em Fãs da Psicanálise com a terapia que me iniciou no universo holístico: o Reiki Usui, um verdadeiro divisor de águas na minha vida. Gosto de brincar que eu me tornava menos publicitário a cada sessão de reiki que eu aplicava

Levei muito tempo para compreender que reikianos já nascem prontos. Reikianos são aqueles com impulso para a benemerência, cujos corpos vibram ondas de energia solidária, cujas mãos esquentam os alquebrados e cujos impulsos são curadores como o anônimo que corre à cabine telefônica para sair de lá um super-herói.

Reikianos, super-heróis e mestres não se escondem. Tem a consciência da potencial força que tem nas mãos para promoverem o equilíbrio aonde quer que estejam. Estão munidos de poderosas armas de amor capazes de combater energias densas quaisquer, das discussões simples às calamidades de grande magnitude.

Para quem não conhece: Rei representa uma energia cósmica, divina, natural e universal; e Ki se refere à energia individual, corpórea, física. Assim, Reiki é a técnica em que o iniciado capta e transmite, como se fosse um tubo condutor, uma poderosa torrente invisível, virtuosa – e portanto amorosa –, para um destinatário bastante específico – um ambiente, um objeto, uma plantinha, um bichinho de estimação ou uma pessoa, presente ou não. Como é uma energia, pode ser enviada a distância pelo poder da intenção. Sim. Reikianos são seres de boa intenção. São seres de impulsos amorosos que transmitem pela imposição das mãos muito mais que calor: emitem não a própria energia vital, mas a energia divina presente em tudo o que existe. Assim, reikianos não se cansam porque não é a própria energia que doam e Reiki se doa como se doa um sorriso: não há restrições de classes, nem credos, nem idade e contra ele não há ressalvas nem condições.

Ter a energia Reiki por debaixo da roupa é mais do que voar ou ser de aço: é ser um privilegiado, um defensor da paz e da ordem, cuja maior felicidade é promover a felicidade para o outro.

Decolagem

reikiDecolagem

(Paulo Sartoran)

A partir de hoje, aqui neste Fãs da Psicanálise, passo a desempenhar semanalmente um inédito papel como colaborador. Não que antes não o tivesse feito, redigindo para outros veículos em outros tempos, casos dos artigos enviados para o site do Instituto Cultural, Artístico e Literário do Brasil, de São Paulo, e para os folhetins Semana em Destaque, de Indaiatuba, e Folha de Valinhos, da terra de Adoniran Barbosa. A diferença é que antes tratava de literatura e cinema e garranchava meus contos e crônicas e desta vez orbito pelo fascinante universo holístico, sobre o qual escrevo pela primeira vez, embora já tenha 9 anos de foguete.

Aliás, decolei quando me tornei um reikiano: pude então entender que muitas das sensações que eu tinha quando menino eram derivadas de uma tal de energia que, naquele tempo, eu mal imaginava o que fosse. Sensações aquelas me formigavam durante o sono, esquentavam as minhas mãos e faziam percorrer pelo meu corpo ondas vibrantes, como arrepios de magnitudes diversas, ora intensas, ora suaves – mas sempre doces –, que só compreenderia muito tempo depois.

Por impulso do Reiki Usui descortinei outros sistemas de saúde como a Homeostase Quântica da Essência, a medicina ayurvédica, o Reiki Xamânico Estelar, a Radiestesia, o Magnified Healing. Por impulso do destino inauguramos o Instituto Cultural Potala onde, caprichosamente, estas e outras dezenas de terapias se instalaram a partir de maio de 2012, aqui em Indaiatuba, a 100 km de São Paulo. Assim, formou-se o cenário ideal para que, visceralmente ligado a um espaço holístico, pudesse trazer para os Fãs da Psicanálise não só os dotes destas técnicas, mas os testemunhos espetaculares que são capazes de alcançar.

Espero poder cumprir, com a leveza característica dos contos, e com a perspicácia peculiar da psicanálise, este novo papel que me chega. E, como o louco que inicia a jornada do herói, espero estar em muitos lugares e conhecer todos para, no último dia, escrever que tudo valeu a pena.