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“Virei paciente”

(Dra. Karen Câmara)

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Não gosto que minha rotina seja quebrada ou bagunçada de repente, sem meu consentimento, sem aviso prévio. Acho que ninguém gosta.

Na segunda-feira passada tive uma sessão de terapia que provocou um abalo sísmico dentro de mim. Eu era a analisanda, não a analista. De repente algumas placas tectônicas internas se moveram, enxerguei uma porção de coisas, fiquei agitada, desarrumada por dentro, os pensamentos confusos.

Saí da terapia e fui direto para o trabalho. O enfermeiro que trabalha comigo viu que eu estava meio estranha e começou a verificar meus sinais vitais: pressão arterial, frequência cardíaca, glicemia. A pressão subiu. O coração não só acelerou como passou a bater fora do compasso. Os pensamentos ficaram confusos e se manifestavam em uma fala repetitiva, sem muita lógica.

Pois é. Somatizei. Converti.

Claro que eu queria continuar meu dia conforme o costume, mas não me deixaram. O enfermeiro chamou minha filha, que foi me buscar no trabalho e me levou direto para o hospital. Passei por vários médicos, todos com um jeitinho muito simpático, mas com idade para serem meus netos. Eu, num mau humor daqueles, questionava tudo, discordava de tudo, só queria ir embora para casa. Eles tateando, tentando me tourear, talvez meio intimidados pelo fato de eu ser médica e ter cabelos brancos. Olhei os CRMs nos carimbos: todos altos, três vezes maiores que o meu, todos formados há pouco tempo. Depois de uma verdadeira campanha de convencimento, fui internada, muito a contragosto. Sabe aquela situação em que você diz “aceito, mas não concordo”?

No dia seguinte, depois de uma noite péssima, eis que surge um médico que parecia bem mais velho que eu.
“O que você teve?” ele perguntou.

“Uma arritmia e uma suspeita de AIT”, disse eu. (Obs: AIT quer dizer Acidente Isquêmico Transitório, ou seja, um pequeno derrame).

Ele franziu a testa, cerrou as sobrancelhas, fez uma cara feia.
“Isso é diagnóstico! Eu quero saber dos seus sintomas!” disse ele peremptoriamente.

Baixei a cabeça. Murchei as orelhas. Fui para meu lugar. Naquela instante, naquele lugar, meu papel era de paciente. Cabe ao paciente, e só a ele, relatar seus sintomas. Cabe ao médico, e só a ele, elaborar hipóteses diagnósticas. É claro que os dois têm que trocar informações e um ajuda o outro. É uma parceria. Mas cada um no seu lugar.

De repente fui lembrada disso e, meu Deus, que alívio! Finalmente começou a verdadeira consulta, através do estabelecimento claro dos papéis e de suas funções naquela nascente relação médico-paciente. Alguém que vai me ouvir, que quer saber o que eu senti. Ele assumiu o papel de médico e me tratou como paciente, que era meu papel naquele momento. Me ouviu, me examinou com calma, viu meus exames anteriores com atenção. Explicou a gravidade do que eu tinha e os possíveis riscos. Estabeleceu uma linha investigativa. Disse quais os exames iria pedir e por que. Deu um prognóstico. Aprendi muito naqueles poucos minutos de visita.

Ufa, encontrei um médico de verdade! Como os de antigamente. Eles ainda existem.

Ele pediu um exame e colocou seu carimbo. Uau! Um CRM baixo!

Precisou surgir alguém com um CRM muito menor que o meu para me colocar em meu lugar.

É nessas ocasiões que percebemos que não somos nada, apenas desempenhamos papéis diferentes nas mais diversas
situações.

O poder do belo

(R. C. Migliorini)

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Certa vez, um famoso violinista tocou incógnito durante quarenta e cinco minutos no metrô de Washington. Nesse tempo, quase ninguém parou para ouvi-lo. Somente as crianças deram sinais de que o fariam caso não estivessem acompanhadas por pais apressados.

Nada me parece mais natural, já que na maioria das sociedades humanas, ao contrário do que ocorre com os adultos, as crianças dispõem de tempo, pois nelas os adultos têm que se dedicar não só à própria subsistência como também à manutenção e cuidado com as crianças.

Ilustro meu ponto de vista com um filme a que assisti nesse final de semana. Ele era sobre a vida em uma tribo de Papua – Nova Guiné. Nele mencionaram muitas pessoas, entre elas um garoto e seu pai.

Ao garoto cabia a tarefa de cuidar dos poucos porcos da família. Como essa tarefa não exigia tanto o seu tempo, ele podia brincar com as crianças que faziam o mesmo, caçar borboletas, se entreter com vários insetos, cultivar uma mini-horta e até tirar uma soneca durante o trabalho.

Já seu pai, caminhava diariamente para uma torre de observação de onde vigiava a aproximação de inimigos. Protegia, assim, o território da aldeia, e durante o tempo lá encarapitado, fazia outras atividades como tecer adereços. Essas tarefas, porém, não o distraiam muito nem exigiam que ele saísse de seu posto. A vigilância constante era necessária porque volta e meia os homens daquele povoado guerreavam com os vizinhos.

Embora, em algumas raras ocasiões as batalhas travadas ceifassem a vida de alguém, por puro gosto eles as repetiam em intervalos regulares e nem sequer cogitavam fazer um tratado de paz. Contudo, todas terminavam antes do anoitecer, porque mesmo o guerreiro mais feroz temia os fantasmas que vagavam durante as horas de escuridão. Todavia, é interessante notar que estivessem em guerra ou não, o pai do menino nunca deixava de olhar para as belezas ao redor, e sua preferência era ver a revoada das andorinhas se recolhendo para dormir.

Talvez a atribulação máxima de sua vida de adulto fosse guerrear, e olhar para essas coisas fosse o seu modo de relaxar. Em nosso dia-a-dia, podemos fazer o mesmo, de modo que belas vistas e músicas nos relaxam mesmo que não tenhamos tempo para nos deter diante delas.

Assim, penso que as pessoas sempre são capazes de perceber a beleza em nosso quotidiano corrido, já que até mesmo em meio às guerras o fazem.

Ideais, sonhos e sofrimento no trabalho

(Sonia Pedreira de Cerqueira)

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A literatura sobre sofrimento psíquico no trabalho é vasta, com publicações separadas até por segmentos: sofrimento do profissional da saúde, sofrimento psíquico do profissional da educação, administração, entre outros.

O que quero deixar hoje com este texto é apenas o conhecimento de que existe sofrimento psíquico dentro das empresas e temos que dar atenção às suas causas e sintomas.

Socialmente falando, o trabalho é símbolo de status, realização e felicidade. Todos buscam estar felizes com seu trabalho, buscam melhorar suas habilidades para alcançar o tão sonhado emprego ou cargo ideais.

Vale lembrar aqui também que há a cobrança social para que você seja bem sucedido, tenha um bom emprego, seja um empresário de sucesso e possua os famosos símbolos de felicidade do trabalhador: casa bonita, carro bonito, roupa bonita e tudo mais de bonito que merece um profissional competente (será que precisamos disso tudo? Mas esta é uma discussão para outro texto).

O problema acontece quando estes ideais tão sonhados começam a ser frustrados. Você se mata e o aumento não vem. Você estuda, termina o MBA e a promoção não acontece. O ambiente no qual você trabalha é cheio de conflitos. E você percebe que, como profissional, está preso a um emprego que não realizará seus sonhos.

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Dejours (1998) afirma que as relações de trabalho, dentro das organizações, freqüentemente, despojam o trabalhador de sua subjetividade, excluindo o sujeito e fazendo do homem uma vítima do seu trabalho. Acrescento aqui que o próprio homem torna-se vítima também de seus ideais.

Estas dificuldades, frustrações e buscas incansáveis por ideais sociais vividas no ambiente de trabalho pode levar o profissional ao sofrimento psíquico e colocar em risco sua saúde não só mental mas também física.

Há muito tempo temos presenciado nas mídias como a atual organização do trabalho vem fazendo as pessoas adoecerem. Estresse, insônia, alteração de humor, dificuldade para se relacionar com os colegas e com a família e a depressão são os problemas mais citados.

O pior disso é que muitos profissionais buscam ajuda somente em situações extremas, pois tem vergonha de assumir suas dificuldades. A ajuda de um especialista nesta situação é de extrema importância para que a pessoa reformule seus ideais e retome sua saúde psíquica.
E você? Já pensou como estão seus ideais?

Fofoca conseqüência da Inveja – Uma neurose a ser combatida nas empresas

(Sonia Pedreira de Cerqueira)

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Resolvi continuar o tema inveja esta semana por se tratar de um mal muito presente nas empresas. Não há uma só empresa, um só departamento, um só ambiente que não sofra com a inveja que as pessoas sentem entre si.

ALBERTONI, 1996, escreveu que desejar e julgar são os pilares do ser humano, mas são também a fonte da inveja. O desejo frustrado faz com que tenhamos concentração em alguém que teve sucesso onde falhamos. Além de ficarmos tristes com nosso insucesso, ficamos também cheios de rancor com quem venceu.

A conseqüência mais comum deste rancor vindo de uma frustração acaba desabando em uma reação muito conhecida nas empresas: a desvalorização.

Desvalorização é a depreciação das boas qualidades de alguém com o intuito de provocar menos admiração pelo invejado e mais admiração do invejoso. Muitas vezes é comum o invejoso aparecer como vítima das situações.

Para aparentar ser melhor do que o outro, o invejoso usa da maledicência , fofocas e críticas negativas para desvalorizar o sucesso do outro.

O que mais me preocupa é que a inveja se manifesta de forma dissimulada através da fofoca. Digo aqui dissimulada porque muitas vezes o invejoso/fofoqueiro conta a sua visão da realidade manipulando a opinião de quem o escuta, criando um clima de desconfiança e desconforto para o invejado e também para todos que trabalham no ambiente da fofoca.
Não vou nem falar aqui daqueles que adoram uma fofoca, porque essa aí é uma outra patologia (quem gosta de ouvir fofoca é tão sádico quanto o fofoqueiro) .

Quando há no ambiente de trabalho um comportamento de fofoca depreciativa, tal comportamento deve ser imediatamente repelido pela liderança. A fofoca advinda de um invejoso pode não só acabar com a carreira do invejado como também criar um clima de desconfiança na equipe toda.

A fofoca e o fofoqueiro não podem ser tratados com normalidade como tenho visto nas empresas, pois eles são os responsáveis por criar os famosos “ambientes neuróticos”. E o pior disso tudo é que as pessoas convivem nestes ambientes e nem se dão conta do esquema de fofoca e inveja do qual fazem parte.

A pessoa que é a responsável por criar o clima de fofoca precisa se encaminhada para tratamento e vista como uma pessoa que precisa de ajuda.

Sexo ou sexualidade?

(Paulo Jacob)

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Olá, tudo bem? Espero que sim!

Hoje vamos falar sobre o tema que intitula essa parte do blog, ou seja, sexualidade.

Qual sua opinião sobre esse tema? Pensando nele, logo vem à sua cabeça “sexo, sexo, sexo…”? E o antes do sexo? O que é?

E se eu disser para você que a sexualidade é o sexo também, pode parecer óbvio, mas que existem coisas além disso para que o sexo fique melhor.

Então para começarmos a falar mais sobre esse assunto, vou te fazer uma provocação. Imagine que nesse momento bateu aquela vontade de você transar com seu marido/esposa/namorado/namorada….., mas você sabe que isso só será possível fazer à noite, pois devido a rotina de vocês, o horário que “sobra” é à noite. O que você irá fazer para quando chegar esse momento, fique melhor? Colocar uma roupa especial, sair para jantar em um lugar diferente, ou fazer algo para comer em casa mesmo, mas algo fora da rotina, abrir uma garrafa de vinho, ouvir uma música mais romântica… tá ficando bom, né? É…. Mas ainda falta muita coisa para falar que isso é sexualidade, isso é a cereja do bolo, para depois durante o sexo, comer a cereja, entende?

E antes de toda essa preparação? O que você fez para esses momentos ficarem melhores ainda? Quando acordou (isso se morarem juntos), disse um “Bom Dia!” (se não morarem juntos, mensagem no celular também funciona, ou ligar e falar…), deu um abraço mais apertado, um beijo mais demorado? Demonstrou o seu carinho e felicidade pela oportunidade de estar junto da pessoa que ama/gosta? Ao longo do dia demonstrou que à noite você está afim de fazer algo especial? Seja por email, carta, sinal de fumaça, torpedo, etc? Escreveu coisas mais românticas, para deixar ainda mais claro as suas intenções? E quando viu a pessoa, se esforçou para mesmo cansado, dar um sorriso, e mostrar para ela que estava feliz em vê-la novamente? Perguntou como foi o dia dela, ouviu com paciência seus problemas, e procurou ajudar dentro das suas possibilidades, demonstrando interesse? Chamou-a para tomar uma banho junto, pediu para que lavasse o seu corpo, você lavou o dela…

Viu quantas coisas podemos fazer, antes de chegar na cereja do bolo? Concorda que se fizer algumas dessas coisas, a cereja vai ficar mais doce, suculenta?

É, você pode pensar que sexualidade dá trabalho, mas a recompensa no final é muito boa!! Tente fazer, e me fale se valeu ou não a pena.

Abraços, e ótima semana para você.

A sorte e inveja no trabalho

(Sonia Pedreira de Cerqueira)

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Sempre gosto de trazer para meus textos as experiências de minha semana de trabalho, já que passo por tantos ambientes diferentes, sempre tenho contato com pessoas admiráveis.

Esta semana estava conversando com uma jovem empresária que acabou de abrir seu próprio negócio. Esta profissional tem muito sucesso em sua carreira, tem uma atrativa carteira de clientes e trabalha sem parar, faz cursos e passa os fins de semana planejando seu trabalho.

Com toda essa trabalheira, ela sempre escuta de seus colegas/concorrentes a seguinte frase: “nossa, como você tem sorte”. Comentário infeliz de quem no fundo, mas bem lá no fundo, está morrendo de inveja e é incapaz de fazer um elogio sincero, como por exemplo: “parabéns, você merece por todo seu esforço, dedicação e disciplina”.

E a inveja inunda os ambientes de trabalho.

A palavra inveja vem do Latim INDIVIA que significa “olhar torto”. Significa o desejo de obter algo que outra pessoa possui e que você não tem. Como se você sentisse tristeza pelo bem alheio.

O invejoso cobiça tudo o que é alheio, o cargo, o trabalho, aquele projeto que o chefe passou para o colega e a atenção que o chefe dá para as outras pessoas da equipe. O mais interessante é como ela é manifestada: o invejoso agride, difama, prejudica e sabota o trabalho alheio. E o pior disso tudo é que seu lago egocêntrico faz com que ele se sinta o máximo, senhor da razão (só mais um injustiçado).

Mas a pior inveja é aquela que está na “normalidade”, podendo ser manifestada quando não ouvimos ou não damos importância ao sucesso de um colega, quando não conseguimos fazer um elogio. Quando sentimos uma tristeza enorme depois de uma ótima reunião onde um colega se destacou .

O processo que desencadeia toda essa inveja já é bem conhecido nosso: a comparação. Quando nos comparamos com os outros podemos nos sentir injustiçados, o que nos desperta este sentimento de frustração, uma insatisfação pessoal que nos corrói, nos entristece, que qualificamos como inveja.

E como saímos deste processo? A única maneira que vejo para melhoramos este sentimento é fazermos uma comparação conosco mesmo. Você está melhor ou pior do que ontem? Você já alguma vez na vida pensou de onde você veio, no que você se transformou agora ( aonde você chegou) e o que falta você fazer para sociedade aonde vai se perpetuar? Ao pensar nessas três questões, olhamos para nossa própria vida e começamos a admirá-la.

Não temos como nos comparar com os outros, as pessoas são diferentes, as necessidades diferentes, os comportamentos diferentes. Só temos condição de nos comparar com o nosso próprio referencial como pessoa. Dessa maneira, damos início ao auto-tratamento da nossa inveja.

Necessidade de reconhecimento e felicidade no trabalho

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(Sonia Pedreira de Cerqueira)

Hoje vou começar a descrever uma situação que muito me preocupa no meu dia-a-dia dentro das organizações e também na minha vida acadêmica: o ideal de reconhecimento profissional que criamos para nossas vidas. E olha que o desgaste emocional em troca de um reconhecimento é bem maior do que podemos imaginar.

As pessoas fazem grandes investimentos psíquicos esperando receber o idealizado retorno. Em oposição, sabemos que todo o esforço sem amor e cheio de expectativa tende à frustração. Daí aquele velho discurso: esforcei-me tanto e nem fui reconhecido! Mas espera aí, você faz o seu trabalho porque gosta dele, entende sua função social, compreende que ele provê seu sustento ou faz seu trabalho para ser reconhecido e suprir suas vaidades? (Essa pergunta vale pra todo mundo, pra mim, pra você e para seu colega).

E assim, eu apresento aqui um grande, necessário e presente mal das organizações: a necessidade crônica de reconhecimento. Necessidade essa que muitas vezes tira nosso prazer de trabalhar, nosso prazer de fazer bem feito. Você já ouviu aquele discurso assim: “vou fazer de qualquer maneira mesmo porque ninguém valoriza”? Este discurso mostra o quão frágil é a pessoa. A necessidade de reconhecimento molda e toma sua vida profissional e pessoal.

Costumo classificar (sem querer rotular) pessoas que precisam de reconhecimento como muito difíceis porque se elas recebem reconhecimento, ótimo, elas ficam bem e se relacionam bem com os outros a sua volta. Mas, se por algum motivo, elas não são frequentemente reconhecidas, sua auto-estima fica baixa causando problemas de relacionamento com os colegas e também problemas psíquicos.

E vamos falar a verdade, necessidade de reconhecimento é inerente ao ser humano. Quem não gosta de receber um elogio? É ótimo ser reconhecido! O que não podemos é pautar nossa vida e nossa felicidade no reconhecimento dos outros. Se fizermos isso tornamos nossa vida cheia de cobrança para conosco e para com aqueles que nos rodeiam.