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Egocentrismo ou Empatia, eis a questão!

(Claudia Pedrozo)

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Nesta semana gostaria de dividir com vocês duas máximas ditas pelo meu querido professor, Dr. Wilson Cerqueira: “Somos a flecha e Deus o arqueiro!” e “a vida sempre nos testa!”. Escrevo aqui semanalmente sobre a relação pais-filhos adolescentes e dou algumas “dicas”, a maioria delas vividas por mim na relação com meus filhos.

Mas como a vida testa e o “Arqueiro” sempre lança a flecha, na semana passada foi minha vez de ser lançada e testada!
Tenho uma filha, um ser humano lindo, que procurei educar com responsabilidade e liberdade “vigiada” (na verdade tenho um casal, ambos lindos, inteligentes e cheios de opinião!). Sempre usei o discurso que criamos os filhos para o mundo e que “meus” filhos não são meus, são um presente do “Arqueiro”, para testar minha paciência e me ensinar o significado de amor incondicional!

Minha filha foi chamada na Universidade Federal de Ouro Preto! Orgulho e apreensão! Hora de colocar em prática o discurso cantado em verso e prosa. No frigir dos ovos, lá fomos nós enfrentar uma loooonga viagem de 24 horas – ida e volta até as Minas Gerais – para matricular minha filha.

Este episódio me mostrou algumas coisas valiosas: a primeira é que discursar é mais fácil que agir conforme o discurso (foi preciso negociar muito comigo mesma para que o conhecimento introjetado – filhos não são propriedade dos pais – se transformasse em valor!); a segunda é que meus filhos, apesar de irmãos, são amigos (e isto me deixa muito feliz! Como irmãos eles disputam tudo, se provocam, se irritam, mas na hora do “vamos ver” sabem que podem contar um com o outro); a terceira é que tudo isso é possível graças aos valores familiares que sempre buscamos, meu marido e eu, ensinar a eles pela força do exemplo e a quarta é que muitos jovens que estão “soltos” pelo mundo carecem de bons exemplos para serem seres humanos mais empáticos!

Por que digo isso? Bem, matrícula feita lá fomos nós buscar um lugar para “minha” filhota morar. Conheci o mundo das repúblicas estudantis! Pelo menos uma partinha dele. Descobri que há repúblicas federais e repúblicas particulares. Conversei com algumas universitárias que faziam panfetagem buscando completar o quadro de moradoras de suas casas (quanto mais gente, menor o gasto!). Conversei também com outras “corujas” que, como eu, estão trabalhando o processo de corte do cordão umbilical e ouvi alguns relatos, bastante incomodos, acerca da realidade vivida por alguns jovens universitários em algumas repúblicas estudantis pela cidade.

Segundo a narradora algumas “casas” realizam trotes que são verdadeiros assédios morais, que humilham o estudante, abalando profundamente sua auto estima, pelo simples fato dele ser o “bicho”, logo deve provar que é bom o bastante para ter a honra de morar na casa dos “super veteranos”. Achei as histórias um pouco fantasiosas, até que, em uma das repúblicas que fui conhecer junto com minha filha ouvi algo parecido. Quando perguntamos sobre trote, a pessoa que nos atendeu disse que minha filha teria algumas tarefas, que objetivavam apenas fazê-la valorizar a acolhida, o uso dos móveis e do espaço, em outras palavras, ela seria a responsável por abrir e fechar a casa, limpar os banheiros e jogar o lixo para fora, além de ser a primeira a acordar para preparar o café das outras moradoras. Não sou contra o trabalho colaborativo, aqui em casa todos colocam a mão na massa, mas o que assustou foi ler nas entrelinhas que ela seria a nova empregada da casa! Quando questionei, notei que a moça ficou meio sem jeito, mas afinal todo mundo faz assim… e “é só para que a caloura valorize a oportunidade!” Agradecemos a atenção e saímos de lá rapidinho. Fomos a outros lugares, conversamos com outras pessoas e acabamos optando por uma república mais empática!

Esta experiência me fez pensar na questão dos valores egocêntricos e empáticos que nos constituem enquanto seres humanos. Na formação do nosso caráter encontramos uma dualidade de informações, algumas egocêntricas e outras empáticas. Agimos de acordo com estes conteúdos psíquicos sendo influenciados por eles a todo momento.

Valores egocêntricos são aqueles que idealizamos como bons para nós e que nos fazem pensar primeira e somente em nós. Graças a eles agimos de forma egoísta gerando separatividade, sentimentos de superioridade perante os outros, a acomodação, o ciúme, a vaidade, a arrogância, a prepotência, presunção, o orgulho, enfim sentimentos e ações que não levam em consideração a felicidade alheia. Já os valores empáticos nos fazem agir de forma a pensar no “nós”, ou seja, “eu + o outro”. Eles nos induzem a agir de forma solidária com as necessidades alheias e são traduzidos em ações de solidariedade, honestidade, compreensão, respeito etc.

Jung diz que toda vez que o nosso ego entra em contato com os seus conteúdos psíquicos o mecanismo da consciência funciona e nos força a rever pensamentos, atitudes e emoções, com base nessas duas estruturas de valores (empáticos ou egocêntricos). Quanto maior o nível de nossa consciência moral maior atenção daremos aos nossos valores empáticos e diante de atitudes egoístas sofreremos com mais intensidade as advertências dos nossos mecanismos de censura moral. Ao longo de nossa existência passaremos por diversos estágios de egocentrismo que serão reduzidos lentamente à medida que aumentamos nossa consciência moral empática.

Acho que alguns universitários que conheci, cheios de conhecimentos culturais, precisarão ser testados pelo “Arqueiro”. Diante do que vi, quero pedir algo aos pais deste país: Pais, abasteçam seus filhos de conhecimentos culturais, mas acima de tudo, procurem desenvolver neles os conhecimentos morais. Quando não vamos pelo amor, vamos pela dor!