Angústia em relação a morte

(Padre Jeferson Luis Leme)

sofrimento

(Texto bíblico: Mt. 26, 36 – 45)

O texto que escolhi para nossa reflexão, relata a angústia que Jesus passa diante da insegurança, do medo da morte. Angustia que todos nós passamos diante de uma situação de morte, ou seja, quando estamos num velório de um ente querido que acaba de falecer. Ainda mais quando a morte de uma pessoa muito próximo, nos leva a refletir que um dia nós também iremos passar pelo “processo” da morte. Aí vem a angustia que nos leva ao nada.

Na psicanalise, sinal de angústia é a expressão usada por Freud para designar um dispositivo racional que o ego põe em ação diante de uma situação de perigo, para evitar ser dominado pelas excitações desagradáveis. O sinal de angústia reproduz de forma atenuada a reação de angústia vivida primitivamente numa situação traumática, o que permite desencadear operações de defesas. Freud também fala sobre a angústia automática que é a reação do sujeito sempre que se encontra despreparado e submetido a uma situação traumática, isto é, submetido a um afluxo de excitações, de origem externa ou interna, em que é incapaz de dominar. Para Freud, a angústia automática opõe-se ao sinal de angústia que é a preparação racional para evitar a Angústia Automática.

Para Heidegger, é o nada que nos leva a angústia. Pois, o nada é a plena negação da totalidade do ente. O nada se revela na angústia, mas não enquanto ente. O nada nos visita juntamente com a fuga do ente em sua totalidade. Na angústia se manifesta um retroceder, esse retroceder recebe seu impulso inicial do nada. A nadificação não é nem uma destruição do ente, nem se origina de uma negação. O próprio nada nadifica.  É a experiência do nada, não intelectual, mas emocional, que gera o sentimento de angústia (aceitação da própria finitude).

A aceitação da própria finitude é importante para todos nós. Jesus passa pela experiência da angústia e aceita sua finitude como homem. Por isso é importante ter um sentido para vida. A morte é, em si, desesperadora para todos, até mesmo para os animais, e parece só não sê-lo para os que vivem a vida com extraordinária grandeza e na luz de uma grande fé. Esta fé, diga-se a bem da verdade, não precisa ser religiosa ou transcendente, com a qual se acredita e professa explicitamente a Deus e a existência de uma vida pós-morte.

Qual é a nossa angústia? Primeiro, a vida é um valor, em si, e uma graça, a mais palpável de todas, e quanto mais se encarece seu valor, menos se deseja perde-la. Segundo, quase ninguém se sente preparado para morrer, e à morte se seguirá, nos dizem as religiões, a hora-da-verdade, uma espécie de ajuste de contas, o juízo de Deus. Terceiro, dá medo saltar no escuro, no desconhecido, que é morrer. Mesmo que a vida não tenha sido aquela maravilha. Quarto, o mais grave, alguns pregadores estão longe de passar uma imagem positiva de Deus que encontraremos após fechar, em definitivo, os olhos para este mundo. E quinto, morrer é perder, e perder total e irremediavelmente o que já estamos perdendo, embora a conta-gotas, dia após dia. Esta é a lógica da vida que morre. O ser humano é único ser que sabe de sua mortalidade e convive com o fantasma da finitude, do sofrimento, da morte.

A morte, que ocorrerá num momento, sendo a última experiência humana de toda uma vida, é apenas o passo derradeiro de uma caminhada. Na verdade, vivemos morrendo a cada dia. Morrer, por isso, não é uma tragédia, quando se aprende a morrer, com consciência, a cada dia que se vive e, simultaneamente, morre.  O homem, por ter consciência de sua finitude, passa a vida preocupado com o tempo, na intenção de ter controle sobre a própria vida. Diante da finitude da vida e tendo consciência da vida e da morte, lidamos com a nossa fragilidade como pessoas e aprendemos a cultivar o hábito do cuidado.

Com esta fragilidade consciente, descobrimos que a vida, por não ser eterna, cobra atitudes responsáveis. Afinal, não podemos perder tempo e vivemos com responsabilidade para conseguir dar para a vida e tirar dela, da maneira mais urgente possível, aquilo que desejamos. Para Frankl a pessoa humana tem um Deus, uma religiosidade inconsciente. Segundo Frankl, cada pessoa tem uma instância que não é atingida por nenhuma patologia, é incorruptível e lúcida ainda que a doença e o sofrer sejam infinitos. Esta é a dimensão no ética (dimensão espiritual do homem), a espiritualidade imaculada, o Deus vivo na intimidade da pessoa humana.

A vida está repleta de oportunidades para dotá-las de sentido. A vida humana tem sentido sempre e em todas as circunstâncias, e esse infinito significado da existência também abrange sofrimento, morte e aflição.  … nossa luta, nossos esforços não perdem seu sentido e dignidade (Viktor E. Frankl).

 

 

 

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