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O que é ressaca?

(Dra. Karen Câmara)

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As festas de final de ano costumam levar muitas pessoas a beber em excesso, o que resulta naquele mal estar chamado de ressaca no dia seguinte. Os sintomas são  conhecidos e desagradáveis: dor de cabeça, tontura, cansaço, náusea, problemas de estômago, mal estar, sudorese, sede, embotamento mental e outros.

A explicação mais simples para tudo isso é o fato que a bebida alcoólica causa desidratação. Esta ocorre por duas razões: o álcool age como diurético, fazendo com que o organismo elimine mais água do que o normal e as pessoas que estão ingerindo bebidas alcoólicas raramente se lembram de tomar água. Podemos acrescentar que, no nosso hemisfério, é verão nessa época do ano, portanto perdemos água também pela transpiração. Portanto, elimina-se mais água e ingere-se menos água. No entanto a desidratação por si só não seria a causa de todos os sintomas.

Sabe-se que o álcool interfere com o metabolismo do corpo humano, faz com que certas atividades celulares sejam menos eficientes, o que diminui as taxas de glicose e causa um desequilíbrio de eletrólitos no sangue.

Mas a teoria mais convincente seria que a ressaca é causada pelo acúmulo de acetaldeído no organismo.  O acetaldeído é um produto tóxico resultante do metabolismo do álcool pelo fígado. O fígado tem uma enzima que transforma o álcool em acetaldeído e este é de 10 a 30 vezes mais tóxico que o próprio álcool. O acetaldeído causa sintomas como sudorese, vermelhidão da pele, náusea e vômitos.

O álcool também interfere no sistema imunológico e estudos mostram uma relação entre altos níveis de citocinas e sintomas de ressaca. Citocinas são moléculas usadas pelo sistema imune para mandar sinais entre células e desencadear respostas inflamatórias.  A ingesta de grandes quantidades de álcool provoca liberação de citocinas e isso pode causar sintomas como dor muscular, cansaço, dor de cabeça, náusea, irritabilidade e perda de memória.

Por que será que certas pessoas têm ressaca com grande facilidade enquanto outras podem beber sem problemas?

Isso se deve, em parte, à genética. Algumas pessoas e especialmente os asiáticos e seus descendentes apresentam uma mutação genética que faz com que a conversão do álcool em acetaldeído seja muito mais rápida. Uma grande parte dessas pessoas também tem uma mutação na enzima responsável pela próxima etapa metabólica, aquela que converte o acetaldeído em ácido acético. No caso, essa etapa metabólica é mais lenta. Isso provoca um acúmulo rápido e excessivo de acetaldeído no organismo, o que acarreta menor tolerância ao álcool e maiores ressacas.

O peso corporal também influencia, sendo que quanto menor o peso, maior a probabilidade de ter os sintomas da ressaca. Portanto, nesse quesito, as mulheres geralmente estão em desvantagem.

O que realmente causa ressaca é o álcool, portanto quanto maior for a concentração de álcool na bebida, maiores as chances de ter uma ressaca.

Além disso, algumas bebidas alcoólicas possuem maior conteúdo de substâncias químicas secundárias que se formam no processo de fermentação. Esses compostos são chamados de congêneres e, quanto maior a quantidade, maior será a ressaca. Os congêneres contribuem para a cor, o aroma e o gosto da bebida. A vodca, que é incolor e praticamente não tem odor nem gosto, costuma não dar ressaca justamente porque não possui congêneres. Em contrapartida, a ressaca é maior quando se misturam bebidas porque se consome uma variedade maior de congêneres.

Não se deve esquecer que o álcool é um irritante para a mucosa digestiva, podendo causar ou agravar sintomas de gastrite e esofagite.

Existe cura para ressaca?

Não, não existe cura milagrosa. Embora cada povo tenha suas crenças e seus costumes, nenhum alimento ou bebida cura uma ressaca. Alguns acreditam em certas bebidas como café, Coca-Cola, Sprite, chá verde, outros em sopas, peixes, crustáceos e outros pratos para melhorar os sintomas. Também não há nenhuma vantagem em beber mais uma dose de bebida alcoólica no dia seguinte. Isso só vai diminuir temporariamente a percepção dos sintomas da ressaca enquanto o processo de desintoxicação do organismo fica mais retardado.

Analgésicos e antiinflamatórios comuns (não esteróides) podem ajudar a aliviar os sintomas. No entanto, o paracetamol não deve ser usado porque ele também é tóxico para o fígado. Quando o fígado está metabolizando álcool, ele fica mais suscetível aos efeitos tóxicos do paracetamol.

Atualmente há pesquisas que procuram desenvolver uma mistura sintética de substâncias químicas que tenha os mesmos efeitos agradáveis do álcool mas um grau de toxicidade muito menor, de modo a reduzir as chances de uma ressaca. Infelizmente essas pesquisas ainda estão em seus estágios iniciais.

Portanto, se você for beber além da conta, lembre-se que existem formas de minimizar a ressaca: não beber de estômago vazio, não misturar bebidas, beber devagar, beber enquanto faz uma refeição, beber água em intervalos regulares para se manter hidratado.

Uma vez que a ressaca tenha se instalado, pode-se fazer o seguinte para aliviar os sintomas: usar analgésicos (com exceção do paracetamol); fazer uma dieta leve e saudável, beber muita água, repousar, dar tempo para que o fígado metabolize e inative todo o álcool ingerido.

Devemos tomar sol?

(Dra. Karen Câmara)

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O sol tem sido considerado um grande vilão ultimamente. As pessoas evitam tomar sol e, quando o fazem, protegem a pele com protetores solares. É sabido que o câncer mais comum é o câncer de pele e o maior causador é o sol. As mulheres temem o sol porque ele provoca envelhecimento precoce e faz surgir manchas na pele. O sol desidrata não só a pele mas o corpo todo, uma vez que esquenta e faz suar. O sol em excesso pode provocar vermelhidão, bolhas, queimaduras, rugas, câncer.

Mas ele também traz benefícios. Talvez o maior deles seja a produção de vitamina D. O colesterol que existe no organismo é, na verdade, uma matéria prima essencial para, entre outras coisas, a fabricação de diversas substâncias, como por exemplo, a vitamina D. A luz do sol, quando incide sobre a pele, converte o colesterol em vitamina D3. A vitamina D3 é transformada em Vitamina D ativa pelo fígado e pelos rins. Tecnicamente a vitamina D é um hormônio que pode ser produzido pelo organismo através da exposição ao sol. Hoje em dia é comum o médico pedir um exame para dosar a vitamina D e é frequente encontrá-la abaixo dos níveis normais.

A vitamina D é essencial para a absorção de cálcio pelo organismo. Sem vitamina D não há absorção de cálcio pelo intestino. O cálcio não só é fundamental para a saúde dos ossos e dentes como também faz parte de vários processos bioquímicos do nosso corpo. Há estudos que mostram que a deficiência de vitamina D pode facilitar o surgimento de doenças no sistema cardiovascular, pode provocar uma diminuição da força muscular, alterações do equilíbrio e da coordenação motora, além de estar associada a dores crônicas e ao diabetes tipo 2. Pessoas com níveis baixos de vitamina D têm risco aumentado de fraturas, não só por causa da osteoporose mas também porque a força muscular e o equilíbrio estão afetados.

Quando se usa protetor solar, a produção de vitamina D fica muito diminuída. Portanto, devemos usar protetor solar nas regiões mais delicadas como a face, as orelhas, o dorso das mãos e o colo, mas algumas regiões devem ficar livres para tomar sol. Ainda vale aquela regra antiga de que devemos tomar sol nas primeiras horas da manhã ou no final da tarde e pouco de cada vez. Nas latitudes em que vivemos, isto é, no Brasil, a incidência de luz solar é grande e bastam 15 ou 20 minutos diários para que possamos produzir quantidades suficientes de vitamina D. O costume brasileiro de cobrir menos o corpo, principalmente durante o verão, também facilita isso. Estudos feitos com mulheres árabes que usam burcas mostram que a maioria delas tem deficiência de vitamina D porque não se expõem ao sol, mesmo vivendo em países ensolarados.

O sol também regula vários outros processos no corpo e no cérebro. Algumas partes do cérebro registram e reagem a diferenças na quantidade de luz solar a que estamos expostos. Nas regiões próximas aos polos, onde o inverno é rigoroso e longo, o sol nasce tarde e se põe cedo. São tão poucas horas de sol por dia que algumas pessoas sofrem aquilo que se chama de Doença Afetiva Sazonal. É uma depressão que ocorre no inverno, portanto sazonal, justamente porque aquelas pessoas precisam de maior exposição à luz. Em certas escolas dessas regiões há uma sala, especialmente destinada a esse fim, com uma luz artificial forte para que as crianças possam receber uma quantidade extra de luz durante o inverno. Passar algum tempo expostas a esta luz, que imita a luz solar, teria o efeito de prevenir a depressão nas crianças.

Devemos, portanto, tomar sol com frequência, nas horas certas, em pequenas quantidades de cada vez, protegendo as áreas mais sensíveis do corpo e os olhos.

O coração tem suas próprias razões?

(Dra. Karen Câmara)

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“O coração tem razões que a própria razão desconhece”

Muitos  conhecem essa frase, de Blaise Pascal, um filósofo francês do século XVII que também era físico, matemático e teólogo. Parece ser apenas uma forma filosófica de ver as coisas. Mas não é. Pesquisas indicam que o coração é muito mais que uma simples bomba.  O coração é um centro complexo de processamento de informações e possui várias funções além de fazer o sangue circular. Estudos recentes sobre a neurofisiologia do coração, a neurocardiologia,  sugerem que ele tem, sim, uma espécie de cérebro próprio, com células nervosas que se comunicam não só com o cérebro propriamente dito, como também com  o sistema nervoso autônomo e o restante do corpo. Essa comunicação é feita de diversas formas, não só pelo impulso elétrico em si que trafega através de neurônios e se propaga pelo músculo cardíaco. O coração produz também hormônios e neurotransmissores que antes se pensava que só o cérebro podia produzir.  Descobriu-se recentemente que, além do cérebro, também o coração secreta ocitocina, um hormônio conhecido como o “hormônio do amor” ou da afeição. A ocitocina tem um papel conhecido na função do parto, na lactação e na ligação afetiva entre a mãe e a criança. A ocitocina também parece estar ligada a processos cognitivos, tolerância, adaptação, comportamento sexual de ambos os gêneros, comportamento materno e estabelecimento de vínculos afetivos de longa duração. Pesquisas indicam que as concentrações de ocitocina no coração são equivalentes à do cérebro.

O coração possui um sistema nervoso intrínseco que funciona de forma independente do cérebro e do sistema nervoso do organismo. Ele gera e distribui, através de seus tecidos, seu próprio estímulo nervoso de modo a contrair e cumprir a função de bombear o sangue.  Se isso não ocorresse, não seria possível fazer transplante cardíaco. Mas suas capacidades e funções vão muito além. O sistema nervoso do coração tem milhares de neurônios que detectam hormônios e substâncias neuroquímicas, percebem a frequência cardíaca e recebem informações sobre a pressão arterial. Essas informações são transmitidas do coração para o cérebro pela vias nervosas aferentes e exercem  um papel  regulador sobre os muitos sinais do sistema nervoso autônomo que partem do cérebro para o próprio coração, os vasos sanguíneos , glândulas e órgãos. Portanto é uma rede complexa de impulsos, estímulos, sensibilidades, percepções, respostas, feedbacks, que se conecta através de sinais elétricos e bioquímicos.

Que o coração tem uma atividade elétrica não é nenhuma novidade. O eletrocardiograma é um exame que capta os impulsos elétricos do coração através de eletrodos colocados sobre a pele do tórax. Esses sinais são decifrados pelo eletrocardiógrafo que os traduz em um traçado, uma linha cheia de picos e vales. Esse traçado é então interpretado pelo cardiologista, que percebe se o coração está batendo em um ritmo regular ou não, se o impulso elétrico está se originando da forma correta e no local correto, se está se difundindo de maneira adequada pelo músculo cardíaco ou se tem algum bloqueio, etc.

Mas é muito mais do que isso.  O coração é o mais poderoso gerador de padrões rítmicos do corpo humano. O coração cria e mantém um intenso campo eletromagnético tridimensional cujas dimensões ultrapassam os limites do organismo.    

O cérebro também emite sinais elétricos – captados pelo eletroencefalograma – e também cria um campo eletromagnético à sua volta. Esses dois campos eletromagnéticos, o do coração e o do cérebro, interagem entre si e podem fazê-lo de modo coerente ou não.  Quando os dois campos agem de forma coerente, ou seja, quando há um estado de coerência psicofisiológica, existem harmonia e sincronização dos sistemas cognitivo, emocional e fisiológico. A partir daí, os vários sistemas do organismo funcionam de forma mais eficiente e harmoniosa; o estresse, o cansaço, a ansiedade e a depressão diminuem; há maior equilíbrio hormonal e imunológico; os processos regenerativos do corpo ficam facilitados; há mais estabilidade mental e emocional. Ocorre a promoção da saúde como um todo.

P.S. Peço desculpas aos meus leitores pelas semanas em que fiquei sem escrever. Esse texto sobre o coração coincidiu (será que foi coincidência?) com um período de grandes tempestades emocionais e minha arritmia cardíaca piorou muito. Somente agora, depois que consegui uma relativa sincronização entre meus pensamentos, emoções e ritmo cardíaco, consegui terminar o texto. Mesmo assim, acho que ainda falta muito e devo voltar a falar sobre o assunto proximamente.

A doença tem um propósito?

(Dra. Karen Câmara)

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Você já se perguntou por que ficamos doentes? Será por acaso? Será por azar? Será por castigo?

Ninguém gosta de ficar doente. Entre a saúde e a doença, preferimos estar saudáveis. Você percebe que aí existem pelo menos dois aspectos da dualidade? De um lado a saúde e do outro a doença. E, em seguida, a nossa preferência por um dos polos.

Vivemos em um mundo caracterizado pela dualidade. É o claro e o escuro, o quente e o frio, o Yang e o Yin (princípios do Taoísmo, uma filosofia oriental), a vida e a morte, o Bem e o Mal, o positivo e o negativo, o masculino e o feminino, o gostar e o não gostar, o querer e o não querer. Estamos completamente imersos na dualidade. E sempre nos falta algo, nos sentimos incompletos, imperfeitos, insuficientes. O que será que nos falta? O que é que tanto tentamos compensar com bens materiais, com divertimento, com comida, álcool, drogas, sexo, sem deixar de mencionar tudo que usamos para nos abastecer de provisões narcísicas, como conhecimento, títulos, sensação de poder, honrarias, elogios que nos vêm do outro. Quando nos sentimos aceitos, integrados, nos sentimos bem. Quando o outro nos acolhe, nós nos sentimos amados, nos sentimos maiores, melhores, mais completos. Parece que a separação que existia entre o “Eu” e o “Ele” ou entre o “Nós” e os “Outros” se esvai, se dissipa, deixa de existir. E essa é uma sensação maravilhosa porque temos a sensação que somos uma Unidade.

Essa separação, essa visão que as coisas são duais, é criada pela mente humana. É ela que entende a realidade como dividida em polaridades opostas. Esses dois polos não existem separadamente, um precisa do outro para existir. Eles são opostos e complementares, eles se unem para fazer o todo, o Um, a Unidade.

A Unidade é o que todos buscamos e ela só pode ser obtida pela conjunção dos opostos.

Todos temos uma sombra, que são aqueles aspectos que afastamos o mais possível de nós mesmos; são os aspectos que não desejamos ver, que não queremos reconhecer que existem dentro de nós. Temos muito medo de nossa sombra. Gostaríamos de expurgar essa sombra porque acreditamos que, somente assim, nós e nosso mundo nos tornaremos bons e felizes. Entretanto, acontece justamente o contrário. A sombra contém tudo aquilo que nós e nosso mundo precisamos para chegar à Unidade. Precisamos da nossa sombra para nos integrar. Caso contrário, seremos apenas metades. Metades as-sombra-das o tempo todo. Assombradas pela outra metade.

E o que a sombra tem a ver com a saúde e a doença? Acontece que é a sombra o que nos torna doentes. A sombra nos faz adoecer porque ela é o que está nos faltando.

Vou citar um livro que explica isso muito bem. “Todo sintoma é um aspecto da sombra que se precipitou no corpo físico. É no sintoma que se manifesta aquilo que nos falta… O sintoma usa o corpo como um instrumento para fazer a pessoa tornar-se outra vez um todo…Se uma pessoa se recusa a viver um princípio em sua consciência, esse princípio desce para o nível do corpo e aparece então com sintoma. Dessa maneira, a pessoa é obrigada a viver e, a despeito de tudo, a manifestar o próprio princípio que rejeitou. É assim que o sintoma providencia a totalidade do indivíduo, ele é o substituto físico do que falta à alma.”*

As doenças se manifestam através dos sintomas. Quando somos obrigados a conviver com nossos sintomas, a lidar com eles, a nos perguntar de onde vêm e por que existem, temos a oportunidade de enxergar e reconhecer aquilo que nos falta integrar dentro de nós em nosso caminho em direção à Unidade. E esse é nosso maior propósito. Voltar à Unidade.

Podemos dizer, portanto, que o caminho de cura é sempre aquele que nos torna mais conscientes de nós mesmos e, portanto, é o que nos leva da polaridade à Unidade.

Diante disso, como ficam suas ideias a respeito da saúde e da doença? Será que as doenças têm um propósito? Devemos combater ou abraçar nossos sintomas? Preferimos estar doentes ou saudáveis?

*Dethlefsen, T.;  Dahlke, R. A Doença como Caminho. 15.ed. São Paulo: Ed. Cultrix, 2008. p. 45.

Bactérias são amigas ou inimigas?

(Dra. Karen Câmara)

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Como sempre, não há resposta fácil.

Percebe-se, ao nosso redor, uma verdadeira guerra às bactérias. Tanto leigos como profissionais de saúde se lançam com veemência ao seu combate. Será que isso é necessário? Será que é útil?

No texto da semana passada faço menção à suspeita que alguns casos de autismo podem estar relacionados ao uso repetido de antibióticos no tratamento de infecções de crianças. Essas crianças foram tratadas pelos seus pediatras que, tenho certeza, fizeram o que acreditavam ser o melhor para aquela criança naquela situação específica. Mas, pergunto eu, será que era mesmo necessário usar antibióticos em todas aquelas infecções? Essa é uma pergunta que o próprio médico da criança teria dificuldade em responder.

A medicina, assim como as outras ciências, está em constante evolução. A medicina tem protocolos que variam de acordo com a época e o lugar. Mas a medicina também é arte, e arte é algo que confere liberdade. Portanto, os médicos têm a liberdade de seguir esses protocolos mais de perto ou menos de perto. Nesse ponto me sobrevém a dúvida: quando é que medicamentos devem realmente ser usados? Qualquer medicamento pode produzir reações adversas nos pacientes que são sensíveis aos seus componentes. Como saber se o paciente é sensível? Não há como saber, a não ser expondo o paciente ao medicamento. A reação do paciente ao medicamento é única e imprevisível. Pode-se, no máximo, suspeitar que a probabilidade de ocorrer seja maior ou menor, caso o paciente já tenha apresentado sensibilidade antes. Vejo, no meu dia a dia, que a maioria dos pacientes não tem a menor ideia dos possíveis efeitos indesejados decorrentes dos medicamentos que eles usam.

Antibióticos devem ser usados com critérios bem estabelecidos. Em primeiro lugar, só devem ser usados quando são realmente necessários. Em segundo lugar devem ser usados exatamente nas doses prescritas, nos horários determinados e pelo tempo indicado. Não mais, não menos. Antibióticos são excelentes armas se forem usados corretamente. Caso contrário, podem produzir mais mal do que bem. E, mesmo usados corretamente, podem produzir efeitos a curto e a longo prazo. Alguns desses efeitos são conhecidos enquanto outros só estão sendo revelados agora.

Há não muito tempo, cerca de 3 anos, antibióticos eram vendidos livremente em nosso país. O consumidor só tinha que ir à farmácia, comprar o medicamento e usar a esmo. Até que enfim a venda dos antibióticos passou a ser controlada no Brasil. A venda restrita, ou seja, apenas com prescrição médica, já acontecia em outros países há décadas. Há duas boas razões para esse controle: a possibilidade de reações adversas nos pacientes e o surgimento de bactérias resistentes aos antibióticos. No organismo há bactérias úteis, algumas até necessárias para nossa saúde, e bactérias potencialmente perigosas. Os antibióticos não eliminam todas as bactérias do organismo, apenas algumas, aquelas que são sensíveis a eles. Portanto, podem eliminar bactérias úteis também. As outras, as que sobrevivem ao antibiótico, então podem proliferar e causar outras doenças.  Essas doenças são, portanto, causadas por bactérias resistentes a pelo menos um antibiótico.  Essa é uma situação que está fugindo ao controle. Temos cada vez mais bactérias resistentes e menos antibióticos eficazes.

Li recentemente um relatório publicado pelo CDC (Center for Disease Control and Prevention – Centro de Controle e Prevenção de Doenças), instituição governamental de saúde, baseada nos Estados Unidos, que fala sobre os perigos da resistência bacteriana aos antibióticos.  O relatório encontra-se no site: http://www.cdc.gov/drugresistance/threat-report-2013/pdf/ar-threats-2013-508.pdf . Ele contém informações sobre o estado atual da resistência bacteriana aos antibióticos nos Estados Unidos. Acredita-se que cerca de 50% das prescrições de antibióticos seriam desnecessárias, ou seja, o paciente poderia ter se recuperado sem o medicamento. Também seria desnecessário o uso sistemático de antibióticos na criação de animais e produtos derivados que nos servem de alimentação. O uso indevido e o manejo inadequado de antibióticos em muito contribuem para o surgimento da resistência bacteriana. Estima-se que mais de 2 milhões de casos de doenças são provocadas por bactérias resistentes a antibióticos a cada ano. Não temos nenhum relatório sobre o assunto no Brasil.

Sabe-se que, a cada década, é cada vez menor o número de antibióticos descobertos e desenvolvidos pela indústria farmacêutica e é cada vez maior o número de bactérias resistentes aos antibióticos existentes. A situação é alarmante.

Mas a guerra sistemática contra as bactérias usa outras armas além de antibióticos.  Sabonetes bactericidas e enxaguantes bucais são usados para reduzir o número de bactérias nos meios em que atuam. Não entendo por que usá-los no dia a dia, sem uma razão específica. Eles costumam destruir o equilíbrio da flora normal que habita nossa pele e boca, tornando nosso organismo mais vulnerável a doenças.

Temos que aprender a viver em equilíbrio, inclusive com as bactérias que nos habitam e que estão presentes no meio em que vivemos.

 

Novidades sobre o autismo

(Dra. Karen Câmara)

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Assisti ontem a um documentário sobre o autismo (O Enigma do Autismo) que menciona algumas linhas de pesquisa de suas causas e possíveis tratamentos. O que precisa ficar claro, de antemão, é que ainda se sabe muito pouco sobre o autismo.

Refere-se ao autismo hoje em dia como um transtorno que se manifesta em espectro, isto é, existe em uma diversidade de amplitudes e intensidades. Portanto, o autismo pode se manifestar em formas leves até as mais intensas.

Um fato alarmante é o aumento no número de casos diagnosticados. Mesmo considerando que o autismo tenha sido pouco diagnosticado no passado porque era menos conhecido, é inegável que há uma incidência muito maior hoje em dia. Há 50 anos o autismo era considerado uma doença rara, que atingia uma a cada dez mil crianças. As estatísticas desse documentário revelam os seguintes números: uma criança a cada 147 no mundo todo e, na Coréia do Sul, uma criança a cada 38. Calcula-se que houve um aumento em torno de 600% no geral.

Pesquisas feitas na Europa apontam para o fato de que filhos de famílias de imigrantes são mais atingidos. A incidência está aumentada em famílias vindas da África, Caribe e Ásia, onde a cultura e o estilo de vida do país de origem são muito diferentes dos do novo país. Esse é um dado epidemiológico interessante a ser pesquisado. Por que isso ocorre? O que se altera na vida dessas pessoas que se mudam para países tão diferentes dos seus? É a comida, mais industrializada, mais processada? Seria a água? É o acesso à assistência médica que usa antibióticos ou outros tipos de medicamentos com mais frequência? Seriam diferentes contaminantes atmosféricos, domésticos, alimentares? É um conjunto ou alguma combinação desses fatores que atingiriam indivíduos suscetíveis? Por que, entre quatro irmãos de uma mesma família, dois são afetados e dois não o são?

Os estudos dizem que 70% das crianças autistas têm também sintomas gastrintestinais. Muitos casos parecem estar ligados ao uso de antibióticos e às alterações da flora intestinal decorrentes. O documentário mostra casos de crianças que tiveram uma infecção de ouvido, foram tratadas com antibióticos e, partir daí, desenvolveram um problema intestinal persistente. Nessa ocasião surgiu o transtorno do autismo. Algum fator desencadeou a doença.

Sabe-se que no nosso intestino há milhões de bactérias que vivem em equilíbrio entre si e também conosco. Muitas dessas bactérias são úteis para nosso organismo. Algumas podem ser agressivas mas, enquanto estão vivendo em equilíbrio, não nos causam danos. Ora, antibióticos são feitos e usados para agir nas bactérias. Quando tomamos antibióticos para uma infecção de ouvido, por exemplo, eles não destroem apenas as bactérias no ouvido. Eles destroem qualquer bactéria que seja sensível a eles, em qualquer lugar do corpo. Essa é a razão pela qual alguns sintomas gastrintestinais, como diarreia, são tão frequentes quando usamos antibióticos. Eles acabam com certas bactérias intestinais, levando ao desequilíbrio da flora. Quando algumas das bactérias são eliminadas, outras, potencialmente mais agressivas proliferam. Em geral, quando termina o tratamento com antibióticos, a flora bacteriana intestinal se restabelece gradualmente até voltar ao normal.

De acordo com esse documentário, em algumas crianças, a flora permanece alterada e os sintomas intestinais persistem. Isso leva à suspeita de uma relação entre a proliferação de certos tipos de bactérias intestinais e o surgimento do autismo nessas crianças. A mãe de uma das crianças diz que percebeu melhoras no comportamento do filho quando adaptou a dieta dele a essas novas condições intestinais. Outra mãe pediu a um médico que fizesse um tratamento para eliminar essas bactérias mais agressivas do intestino do filho e, enquanto durou o tratamento, a criança teve uma melhora muito grande, tanto dos sintomas intestinais como do comportamento autista.

O documentário não só levanta a suspeita de que antibióticos usados diretamente nas crianças podem estar implicados no surgimento da doença como também menciona aquilo que pouca gente sabe: quantidades imensas de antibióticos são empregadas na pecuária e na agricultura de larga escala, que são as fontes de nossa alimentação.

Em contrapartida, algumas das hipóteses sobre possíveis causas de autismo estão completamente desacreditadas. Uma delas, mais antiga, falava que a culpa era da mãe que não tinha sido amorosa com a criança em sua primeira infância, tendo sido chamada de mãe-geladeira. Outra, mais recente, fez muita gente acreditar que havia uma relação entre vacinas e o surgimento do transtorno. Sabe-se hoje que isso não é verdade.

A saúde do imperador-criança

(Dra. Karen Câmara)

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A China foi um império durante milhares de anos. O imperador era considerado a pessoa mais importante do país, inclusive com atributos que o aproximavam de uma divindade. A segurança do imperador era tão crucial que toda uma cidade foi construída em volta do seu palácio, aquilo que hoje se chama A Cidade Proibida em Beijing.

A educação e a saúde do imperador eram de suma importância. Se alguém viu o filme  O Último Imperador do diretor italiano Bernardo Bertolucci, deve se lembrar de uma cena em que o imperador ainda era criança e suas fezes aparecem dentro de um penico.  O médico olha, movimenta o cocô dentro do penico para ver sua consistência, cheira os excrementos e então diz:  “Menos carne”. Ele queria dizer que a alimentação do imperador-menino devia conter menos carne. O médico examinava as fezes do menino para poder ajustar corretamente sua dieta. As ordens do médico deviam ser seguidas pela cozinha do palácio. O imperador-criança tinha que comer o que fazia bem para sua saúde e não apenas o que lhe agradava. Sim, porque a preservação de sua saúde era assunto de Estado. Todo o império dependia dele e de suas decisões. Mas, veja bem, a saúde era preservada. Dizem que os médicos do imperador só recebiam seus honorários enquanto o imperador estivesse com boa saúde. Quando o imperador adoecia, os médicos deixavam de receber seu pagamento. Isso, é claro, era um incentivo para que os médicos se concentrassem muito mais em preservar a saúde do que em curar as doenças.

Educação e Saúde estão tão interligadas, tão entrelaçadas que é difícil dizer qual é mais importante. A meu ver, Educação vem primeiro. Através da Educação é possível melhorar, e muito, a Saúde. As crianças precisam das duas coisas desde o início e, para isso, as mães têm que ser educadas. São elas que cuidam das crianças nos seus primeiros anos de vida. São elas que formam as próximas gerações. Portanto, para criar as crianças, precisamos educar primeiro as mães.

Outro dia uma mãe me disse que a filha, de seis anos, tinha prisão de ventre crônica e muitos gases. Sofria de frequentes dores na barriga e não conseguia evacuar bem. Quando conseguia, eram fezes duras e ressecadas. Perguntei o que a criança comia e a mãe disse que era principalmente arroz, macarrão, pão e bolachas. “Só?”, perguntei eu. “Acontece que ela não gosta de verduras, legumes e frutas”, me respondeu a mãe.

É claro que a filha tinha prisão de ventre. Com essa dieta, seria difícil não ter prisão de ventre. O que está faltando aqui? Educar a mãe, que parece não saber como alimentar a criança. Ora, criança não deve comer apenas o que quer. A mãe tem que saber o que faz bem  à saúde da criança, assim como os médicos do imperador. A mãe deve ajustar a dieta às necessidades da criança. É claro que também tem que adaptá-la ao gosto da criança.  Mas essa mãe não tinha a mínima ideia do que estava acontecendo e muito menos de como proceder. Então, por conta própria, dava este e aquele medicamento para a criança e nada resolvia. Não resolvia porque ela estava querendo eliminar os sintomas ao invés de lidar com as causas do problema. O problema era a dieta. Uma dieta pobre em fibras, rica em farinha branca, cheia de açúcar refinado, sem as fibras proporcionadas pelas frutas, verduras e legumes. Investiguei mais um pouco, vi que a criança tomava pouca água e bastante refrigerante. Como se não bastasse, fazia pouco exercício físico, ainda mais depois que passou a ter dores na barriga causadas pela prisão de ventre. Estava, então, completo o quadro para que desenvolvesse uma bela constipação intestinal: dieta pobre em fibras, ingesta inadequada de água e pouco exercício físico.

Como solucionar isso? Segundo a mãe, com medicamentos! Sim, por falta conhecimentos, ela dava remédios para a filha, crente que estava fazendo o melhor. Cada vez que ia à farmácia, o balconista lhe empurrava mais um medicamento e ela, toda esperançosa, dava para a criança. Como isso não resolvia o problema, ela achou que os medicamentos eram ineficazes. Foi aí que o caso chegou até mim.

Conversei com a mãe, expliquei que o problema da criança poderia ser resolvido sem uso de medicamentos. Bastaria fazer algumas mudanças na dieta e no estilo de vida. A mãe aceitou as sugestões, implementou as mudanças e depois me disse que a filha havia melhorado.

A mãe teve que ser educada para que a saúde da criança melhorasse.

Falando em Educação, terça-feira foi Dia do Professor. Parabéns a todos eles!